Morte de ciclista em Dublin completa um mês sem ninguém preso

Mural com homenagem a Thiago Cortes foi pintado na região central de Dublin em setembro Foto: Cristiano Goulart

Um mês de altos e baixos, de busca para entender como continuar a vida sem a presença de Thiago Cortes. Essa tem sido a luta diária dos familiares e da noiva, Teresa Dantas, durante os últimos 30 dias. O ciclista faleceu no início de setembro, dois dias após ser atropelado enquanto trabalhava na região central de Dublin, capital da Irlanda.

“Pra mim tá sendo bem difícil me imaginar como um indivíduo sozinho e não mais um casal fisicamente. Eu não tenho planos pra voltar pro Brasil por agora, nossa vida era em Dublin e pretendo ficar aqui”, contou Teresa.

Teresa recebeu as cinzas de Thiago apenas nesta sexta-feira (02) e, conforme a decisão da família, as últimas homenages serão prestadas em território irlandês. “Elas vão ficar na Irlanda, ainda não decidimos onde, mas não vão voltar ao Brasil”, relatou. Natural do Rio de Janeiro, o casal estava junto há seis anos e vivia na Irlanda desde o início de 2018. Em março, Thiago pediu a namorada Teresa em casamento.

Um mês passada a tragédia, no entanto, ninguém foi preso pelo crime. De acordo com a polícia local (Garda Síochána), as investigações continuam em andamento. Thiago trabalhava realizando entregas de comida por aplicativo no dia 31 de agosto quando, por volta das dez horas da noite, foi atingido por um motorista que fugiu sem prestar socorro.

Na mesma noite, um carro que supostamente estaria envolvido no incidente foi encontrado abandonado a poucas quadras do local onde o ciclista foi atropelado. Segundo relatos de testemunhas, quatro pessoas teriam sido vistas saindo do veículo. Os suspeitos, no entanto, seriam menores de idade. Segundo Teresa, investigadores têm mantido contato frequente e a expectativa é de que eles estejam construindo um caso com embasamento forte antes de efetuar alguma prisão.

“O que eu posso dizer é que eu espero que a Justiça seja feita, eu estou recebendo todo o apoio da Garda, apoio emocional também, além de detalhes sobre as investigações. É isso, assim, eu estou vivendo cada dia, dia a dia, sem fazer planos muito futuros, mas vendo cada dia como um novo dia e como viver a vida sem ele aqui. Reaprendendo a viver”, desabafa Teresa.

Medidas entre os ciclistas

O ciclista Carlos*, de 28 anos, trabalha como entregador em Dublin desde 2018. Natural de Minas Gerais, o estudante destacou que durante todo o período conseguiu se desvencilhar de inúmeros episódios de violência, mas o medo é uma constante.

“O que esperar daqui pra frente, bom eu não sei dizer, a gente trabalha com medo, vive com medo. Há poucos dias, ficamos sabendo de outro entregador que foi atropelado. Já estou pensando no que eu faço da minha vida a partir de janeiro”, relatou Carlos.

O ciclista enfatizou que desde a tragédia ocorrida com Thiago, a sensação é de descrença, mas entregadores estão se auxiliando e há um projeto para criar uma união formal, uma espécie de sindicato da categoria. Além disso, por meio de grupos em redes sociais, colegas tentam se ajudar informando os demais sobre regiões e áreas mais perigosas a serem evitadas.

Reunião com a polícia local

Há duas semanas, representantes dos entregadores de comida por aplicativo de Dublin e da Associação das Famílias Brasileiras na Irlanda se reuniram com a polícia local para debater medidas que possam auxiliar na segurança dos ciclistas e dos brasileiros que moram na ilha. Com relatos de vítimas, o pedido foi para que haja mais policiamento em áreas perigosas da cidade e suporte para quem sofre agressão.

Representantes da Garda pediram para que todos os incidentes sejam reportados imediatamente para que se tenham dados efetivos da situação. Além disso, solicitaram para que seja denunciada qualquer abordagem policial que possa ser considerada inadequada, hostil ou preconceituosa. Para reportar, é necessário anotar o número de registro do policial que fica localizado no ombro.

*O nome foi modificado a pedido do entrevistado.

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