Brasileiros ficam sem salário após empresa reter pagamentos na Irlanda

Imagem mostra troca de email entre empresa e funcionário

Por Daiane Vivatti e Cristiano Goulart, de Dublin.

Dezenas de brasileiros estão com os salários atrasados após uma empresa reter os pagamentos na Irlanda. Os trabalhadores eram responsáveis pela limpeza de lojas do varejo de roupas no país.

O problema começou no início deste ano, quando os trabalhadores foram contratados pela empresa SBFM, sediada no Reino Unido, para realizar a limpeza e higienização dos estabelecimentos. As atividades começaram no dia 1º de fevereiro. No entanto, o primeiro salário estava agendado para ser pago somente no dia 16 de março.

Antes mesmo da data chegar, os funcionários já haviam percebido que a empresa não estava prestando o devido suporte de materiais básicos de limpeza, assim como uniformes aos trabalhadores. O controle de horas trabalhadas também era efetuado manualmente (foto ao lado) e de forma improvisada pelos funcionários, que não possuíam métodos automatizados para realizar tal controle.

A surpresa, no entanto, chegou na data prevista para o pagamento, 16 de março, quando cerca de 30 trabalhadores receberam valores significativamente abaixo do total de horas efetuadas. Segundo a então supervisora da empresa, M.T.*, alguns funcionários receberam menos de 20% dos salários.

A brasileira afirma que a maior parte dos funcionários da SBFM não tem intenção de permanecer na empresa: “A gente não quer mais trabalhar para eles. Só queremos receber o dinheiro que eles nos devem”, declara. M.T. reforça ainda que os funcionários não foram corretamente registrados pela empresa, o que os impediu de receber assistência governamental durante o lockdown:

“O pessoal não pôde aplicar pro benefício (auxílio emergencial) porque não estavam registrados no Revenue (Receita Federal) e também porque, se eles solicitassem a carta de demissão, acabariam perdendo o direito de receber os valores pelos dias trabalhados”, lamenta a supervisora.

No dia 23 de abril, uma funcionária que também trabalhava na empresa, mas prefiriu não se identificar, enviou novo email ao departamento de Recursos Humanos da SBFM para reivindicar as 45 horas trabalhadas, conforme controle próprio, mas não obteve sucesso na respostas. Segundo a empresa, o total de horas contabilizadas pela funcionária estava em desacordo com o período registrado pela empresa: “Como você está ciente, nós podemos apenas pagar por horas registradas, as quais você teve 29.58 para este período”, respondeu o RH. O departamento ainda afirmou, por email, que um problema no sistema de pagamentos havia causado o erro.  No entanto, dezenas de funcionários da SBFM ainda aguardam a correção dos salários.

Uma nova mensagem enviada pela funcionária no dia 27 de maio obteve a mesma resposta: “por favor, esteja ciente de que somos incapazes de pagar qualquer hora que você reivindica ter trabalhado que não está registrada como tempo de frequência do nosso sistema – sem registro, sem pagamento (no clock, no pay)”, diz o email.

Após contato da reportagem do Agora Europa, a empresa solicitou aos funcionários uma lista com o nome e detalhes de todos os trabalhadores que possuem reivindicações quanto ao atraso dos salários. Até a publicação desta reportagem, o relatório já continha 20 nomes atualizados.

Em nota enviada ao Agora Europa, a representante da SBFM afirma que, devido à pandemia de coronavírus e ao lockdown, a empresa “não teve a oportunidade de discutir e verificar as reivindicações dos colegas de trabalho”. No entanto, diz a nota, a companhia não possui qualquer intenção de reter os salários dos funcionários.

Leia a nota enviada pela SBFM ao Agora Europa

“Como você está ciente, nós tínhamos recém realizado o contrato, pouco antes da pandemia de Coronavírus e do lockdown. O lockdown foi imposto quase no mesmo período do primeiro pagamento feito aos colegas neste contrato. Desde então, a maioria dos nossos negócios tem sido suspensos e não estão trabalhando devido aos fechamentos forçados dos nossos clientes.

Não tem sido nossa intenção reter o pagamento, por direito, devido. Nós simplesmente não temos tido a oportunidade de discutir e verificar se as reivindicações feitas por estes colegas estão corretas e de entender as razões de qualquer discrepância com nossos registros do sistema, nestes tempos sem precedência.

Nós acreditamos que este é um assunto interno e ninguém deveria lidar com isso em domínio público. Nós respeitosamente solicitamos a oportunidade para investigar os problemas diretamente com nossos funcionários e se qualquer pagamento for devido, isto será, obviamente, pago.

Nós estamos determinados a lidar com esta questão rapidamente.”

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*Após a divulgação deste conteúdo, a fonte M.T. solicitou para ter apenas as inicias do nome divulgadas. Após availação da equipe de reportagem, a modificação foi efetuada conforme requisitado.

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