Rede hoteleira de Portugal prepara reabertura prevendo crise e demissões

Torre de Belém, em Lisboa. Crédito: Câmara Municipal de Lisboa

Por Carlos Machado, de Lisboa.

A rede hoteleira de Portugal prepara uma primeira fase de reaberturas neste mês de junho após terem fechado em março durante o período do estado de emergência devido à pandemia da covid-19. Cerca de 75% dos hotéis em todo o país vão voltar a abrir as portas em junho e julho, embora com muito menos quartos disponíveis, segundo uma pesquisa recente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP). Apesar da expectativa de reabertura, a AHP já adianta que a previsão é de que as taxas de ocupação não irão além dos 30% até ao final de 2020.

Em abril, 80% da rede hoteleira portuguesa fechou com a crise da covid-19. “A expectativa dos feriados de junho está a ser muito importante para a reabertura dos hotéis e já é sinal de uma descida de pessimismo no sector, mas os hotéis estão prudentes e realistas e não vão abrir com toda a capacidade instalada, o que significa que não vão estar a trabalhar em pleno, 70% a 80% vão funcionar com capacidade mais reduzida”, disse a presidente executiva da AHP, Cristina Siza Vieira.

Alojamentos com queda de receita

Localizado em Alfama, uma das regiões mais turísticas de Lisboa, o Hostel 4U está fechado desde o dia 19 de março, um dia depois do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, decretar o estado de emergência em Portugal. Com uma ocupação que chegava a ultrapassar os 90% durante os meses de verão, o alojamento previa faturar 32 mil euros no mês de março. Contudo, com o fechamento das atividades, o faturamento caiu para apenas 12 mil euros. Em abril, maio e junho o lucro foi zero.

“Para julho, estamos com 27% de ocupação, o que não é muito, mas dá para abrir. Se continuarmos a receber novos cancelamentos e não houver mais reservas, aí julho vai ser mais complicado”, explica a gerente do hostel, Inês Correia. “Vamos avaliando para ver o lucro que teremos em relação às despezas, se tiver prejuízo, já não compensa abrir”, complementa.

Com o baixo faturamente devido à pandemia do coronavírus, Inês afirma que o alojamento terá que fazer algumas adaptações para se adequar ao orçamento. “As empregadas de limpeza, ao invés de termos duas, eventualmente poderá vir só uma. Talvez não seja preciso uma pessoa exclusiva para servir os pequenos-almoços (café da manhã)”, adianta.

A imigrante brasileira Suelen Chagas mora em Lisboa há cerca de dois anos e meio. Natural do estado de São Paulo, ela concluiu a graduação no Brasil na área do turismo e trabalha como recepcionista de um hostel há pouco mais de um ano. Como tem contrato de trabalho, Suelen está em regime de layoff, que é o sistema criado pelo governo que garante aos trabalhadores das empresas mais afetadas o pagamento de, pelo menos, dois terços da remuneração. Desse valor, 70% é assegurado pelo Estado, o que alivia os gastos das empresas, mas mantém parte da renda dos funcionários.

Mesmo recebendo o salário mínimo (635€), em períodos normais a remuneração da recepcionista é complementada com o vale-refeição e outros benefícios, como comissões da venda de passeios turísticos. Com a pandemia, a renda mensal dela caiu entre 200€ e 300€. “No início da pandemia eu fiquei doente e tive que gastar com médico e remédio. Se não fossem as economias que eu tenho, eu com certeza passaria por dificuldades”, lamenta.

A difícil realidade dos prestadores de serviços

Uma grande parcela da população de Portugal trabalha como prestadores de serviços, popularmente conhecidos como recibos-verdes. O sistema é muito similar ao Microempreendedor Individual no Brasil, que não garante férias, abono de Natal e nenhum direito trabalhista.

Mineira de Belo Horizonte, Natália Trindade é camareira em um alojamento local de Lisboa. Casada e com uma filha de seis anos, Natália trabalha a recibos verdes e viu o salário cair de cerca de 800€ para 75€ no mês de abril. “No final de abril, eu consegui o auxílio do governo e quando vi o valor fiquei muito assustada, porque inicialmente o governo falou que a gente receberia um valor de, aproximadamente, 400€, que mesmo assim seria metade do que ganho por mês”, relata.

Como o marido de Natália continua trabalhando, a família está conseguindo passar pelo período de crise parcelando e renegociando algumas dívidas e faturas.

A área do turismo corresponde a 11% da riqueza produzida em Portugal e as consequências da crise causada pelo coronavírus causam impacto direto na economia. No mês passado, o Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou que o Produto Interno Bruto (PIB) caiu 2,3% no primeiro trimestre na comparação ao mesmo período de 2019, devido aos efeitos da pandemia de Covid-19.

Compartilhar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.