Arte e pandemia: brasileiros buscam se inserir no cenário cultural irlandês

Plateias vazias, palcos sem atores, pistas de dança sem público, galerias sem visitantes. Esta é a realidade dos espaços culturais da Irlanda, que foram fechados assim como no resto do mundo, em março do ano passado. Desde então, os locais só puderam reabrir em curtos períodos de tempo, quando os números da pandemia permitiram algumas flexibilizações. E, sem a proximidade com o público, os artistas precisaram se reinventar. O desafio, porém, é ainda maior para quem é imigrante e tenta se estabelecer no setor cultural do país antes mesmo da pandemia.

A museóloga brasileira Chiara Rucks, de 30 anos, mora em Dublin desde 2018, ano em que criou o coletivo ArtMulti Brazil. O grupo já conta com mais de 50 profissionais, de diferentes países, radicados na capital irlandesa. São artistas plásticos, atores, cantores, musicistas e dançarinos que tem como objetivo realizar eventos em parceria com diferentes instituições culturais irlandesas.

Neste mês de maio, Chiara está no Mother Tongues Festival (Festival de Línguas Maternas, em inglês) realizando a curadoria de uma das exposições em cartaz. A mostra “Qual a linguagem do futuro?” é uma parceria da curadora com os fotógrafos brasileiros Helio de Araújo e Milena Pernacova.

A exposição “Qual a linguagem do futuro?” faz um questionamento sobre o uso da internet. Foto: Helio de Araujo

O festival celebra a diversidade linguística por meio das artes na Irlanda e, segundo a organização do evento, “mostra que o multilinguismo não é uma barreira, mas um motivo para se reunir e comemorar”. O trio representa o português brasileiro e faz um questionamento sobre a linguagem da internet.

“O festival fala sobre a nossa linguagem materna, então estamos explicando um pouco algumas expressões cibernéticas brasileiras, exaltando as coisas boas, mas também questionando se a gente não está demais nesse mundo digital, pra trazer uma reflexão mesmo”, explica Chiara.

Devido às restrições impostas pela pandemia do coronavírus, o festival está sendo realizado de forma virtual. A exibição está disponível no site oficial até o dia 24 deste mês. Segundo a curadora, o evento marca um importante passo para o grupo, mas o maior desafio está na inserção dos artistas imigrantes no mercado artístico irlandês.

A curadora Chiara Rucks é idealizadora do coletivo ArtMulti Brazil. Foto: arquivo pessoal

No ano passado, o coletivo realizou três exposições – uma no início do ano e duas quando a Irlanda saiu dos períodos de lockdown, em setembro e dezembro. Para a realização das mostras, o grupo contou com o apoio de estabelecimentos brasileiros que cederam espaços aos artistas e receberam as exposições.

“Quando eu mando (propostas de exibição) pras galerias já estabelecidas aqui, geralmente é um aluguel mais caro do que a gente pode pagar ou a resposta é de que está sempre sem datas. (…) Então eu sinto que existe uma dificuldade da gente se inserir no mercado e eu vejo a necessidade de uma abertura para a diversidade”, explica a curadora.

Para Chiara, uma alternativa seria pagar aluguel em um espaço conjunto. Mas isso pressupõe outros gastos, como o pagamento de seguro, por exemplo.

“Está tudo muito incerto”

A dificuldade em encontrar espaços para a realização de eventos, exposições e ensaios, que já existia antes da pandemia, se intensificou ainda mais com o confinamento, especialmente na área de artes cênicas. No plano de reabertura do país divulgado pelo governo irlandês, por exemplo, a retomada de atividades em cinemas e teatros está prevista para junho, mas ainda sem data certa para a liberação.

A paulista Tatiane Reiner, que vive na Irlanda desde 2015 e atua como modelo, atriz e diretora, conta que está em período de preparação de uma peça teatral em inglês, que aborda as condições sociais de pessoas sem documentos. A obra é em conjunto com outra atriz e roteirista brasileira. A ideia inicial era que a apresentação ocorresse em um festival irlandês ainda no ano passado, mas devido à pandemia o lançamento do espetáculo deve ser realizado somente no ano que vem.

“Estamos paradas. A gente está só na produção até que os teatros abram de novo pra podermos aplicar pra fundraising (arrecadação, em inglês) e conseguir teatro também pra poder apresentar. E os ensaios, como há muito trabalho de corpo, não podem ser online”, lamenta Tatiana.

Tatiane atua como atriz e modelo na Irlanda, onde vive há seis anos. Foto: arquivo pessoal

De acordo com um relatório de Avaliação de Emprego e Impacto Econômico da Covid-19, encomendado pelo Conselho de Artes na Irlanda, a previsão é de que o desemprego no setor seja muito maior do que em outros setores da economia. “Entre 2019 e 2021, a previsão é que tenham sido perdidos entre 2.000 e 2.700 empregos artísticos na Irlanda como resultado da Covid-19”, diz o estudo.

Com graduação, pós-graduação e experiência profissional em outros países como França, Alemanha e Itália, Tatiane vivenciou essa realidade de perto, principalmente no ano passado. “Nos primeiros meses da pandemia eu não tive nada de trabalho. Antes, eu sempre tinha uma ou duas audições por mês pra um filme ou comercial de TV, fora a produção da peça que eu estava fazendo e eu também conseguia trabalhos de modelo”, relembra a atriz. Algumas oportunidades voltaram a aparecer apenas no final do ano passado, mas a passos lentos.

“O teatro é zero. Se você me perguntar: tem algum trabalho de teatro? Não. Já faz mais de um ano e eu não tenho previsão de quando isso vai voltar, sabe, nem mesmo audições para uma peça teatral. A área de cinematografia está andando, mas ainda está devagar. Alguns filmes estão sendo gravados, outros não, porque estão aguardando que o governo alivie as restrições”, explica Tatiane.

O que manteve financeiramente a atriz e modelo na Irlanda, durante o lockdown, foi estar trabalhando em um café antes do período. Com o fechamento do estabelecimento, ela pôde aplicar para o subsídio do Governo que beneficia trabalhadores que perderam o emprego em decorrência da pandemia, pois por intermédio dos trabalhos no setor cultural, seria difícil conseguir o subsídio. Essa é a realidade de muitos artistas imigrantes que, mesmo com uma carreira na área da cultura, precisam de um segundo emprego em outras áreas para conseguir complementar a renda.

“Veio a pandemia e a gente ficou perdido”

O trabalho em outra área foi também o que ajudou o DJ e produtor musical Marcelo Ortega, que já atua na cena musical há 15 anos, a se manter na Irlanda. “Eu tenho um auxílio do governo, não por ser artista, mas porque eu tinha outro trabalho. Eu sou DJ e também trabalhava em um restaurante. De fato, como artista, não tive suporte algum”, explica o músico.

Morando em Dublin desde 2018, quando chegou à Irlanda para estudar, Marcelo relembra que recebeu muitos “nãos”. O brasileiro conta que pouco tempo depois foi conseguindo estabelecer contatos com casas de eventos e shows e estava tocando em diferentes festas como DJ convidado. Com a pandemia, porém, tudo mudou.

“O ponto mais difícil é que antigamente eu tocava, ganhava uma grana e parte desse dinheiro eu investia em discos, na pesquisa musical e tudo mais. E, com tudo fechado agora, mesmo não tendo eventos, eu preciso continuar esse trabalho de me manter atualizado, de comprar novos discos e aí a grana ficou um pouco mais apertada, não tem muito o que fazer”, desabafa Marcelo.

Devido ao cenário atual, o músico, que discoteca música eletrônica e também tem um repertório de música latina, precisou se reinventar, assim como muitos outros artistas. Conhecido como DJ Ortega, Marcelo passou a utilizar plataformas online para continuar levando o seu som para outras pessoas.

“Veio a pandemia e a gente ficou assim, perdido. Então eu tive que pegar todo esse trabalho que eu tinha desenvolvido na vida noturna e trazer tudo para a plataforma online. Da noite para o dia eu tive que aprender habilidades de ‘gamer’, saber como configurar o ‘ao vivo’ pra que todo mundo assista legal, sem precisar gravar. Mas o calor da pista faz toda a diferença, de fato é muito estranho tocar para uma câmera”, avalia o DJ e produtor musical.

Marcelo atua como DJ há 15 anos e, há 3 anos, vive em Dublin. Foto: arquivo pessoal

Para o DJ e produtor musical, no momento, há um grande problema relacionado ao desrespeito às restrições definidas pelo governo irlandês: “As pessoas sentem uma necessidade absurda de estar em uma festa e elas acabam fazendo festas clandestinas. Isso atrasa cada vez mais a volta dos eventos. Então, essa necessidade que elas sentem, eu acho que é mais um egoísmo mesmo. Todo mundo quer voltar o quanto antes, mas eu acho que a gente tem que respeitar o momento”, destaca Marcelo.

Marcelo acredita que estaria estabelecido no cenário musical irlandês, tocando em diversas festas, caso a pandemia não tivesse ocorrido. Com a realidade atual, no entanto, o músico está aproveitando o momento  de estudar: “Hoje eu tenho um tempo só pra desenvolver a minha arte e eu consegui aperfeiçoar a minha técnica. Então, esse está sendo um período muito produtivo, mas tem muita gente morrendo (devido à Covid-19) e, só por isso, eu não julgo ter sido o melhor momento da minha carreira”, enfatiza o brasileiro.

Perspectiva para as artes

O relatório de Avaliação de Emprego e Impacto Econômico da Covid-19, encomendado pelo Conselho de Artes na Irlanda, revelou que a recuperação do setor das artes pode levar até 2025 caso não haja um plano de apoio às indústrias criativas. Neste ano, o Conselho – que é a agência governamental de desenvolvimento e financiamento das artes no país – anunciou o recebimento de um financiamento de 130 milhões de euros para o setor. A expectativa dos artistas imigrantes, é também se beneficar de fundos de auxílio para a produção artística.

 

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