Espião russo tenta se passar por brasileiro para trabalhar no Tribunal de Haia


Segundo a agência de inteligência, espião tentou trabalhar no Tribunal Penal Internacional, em Haia. Foto: Canva

*Por Amanda Lima e Cristiano Goulart

Viktor Muller Ferreira, 32 anos, carioca, origem humilde, que amava observar os carros cruzando a ponte Rio-Niterói. Esse foi o disfarce escolhido pelo espião russo Sergey Vladimirovich Cherkasov (36), que tentou utilizar um passaporte brasileiro para se candidatar a uma vaga de estágio no Tribunal Penal Internacional (TPI) de Haia, na Holanda.

Com sucesso, Sergey, que se dizia ser conhecido pelo apelido de “gringo” entre os amigos no Brasil, teria o privilégio de acessar sistemas digitais e “influenciar casos criminais dentro do Tribunal”. O falso brasileiro teria contato com informações privilegiadas da instituição que, atualmente, investiga o país do espião por suspeitas de crimes de guerra cometidos pelo governo de Vladimir Putin na Ucrânia e na Geórgia. Mas o plano não saiu como esperado.

Embora tenha tentado esconder os “laços com a Rússia”, Sergey, que é o agente do Departamento Central de Inteligência russo (GRU), foi descoberto e deportado “no primeiro voo”, declarou o Serviço Geral de Inteligência e Segurança holandês (AIVD). O voo, no entanto, não foi para a Rússia, mas para o Brasil. 

“Cherkasov usou um disfarce bem pensado, escondendo todos os seus laços com a Rússia”, afirmou a AIVD, por meio de nota. O Serviço de Inteligência holandês considera que a tentativa do espião representou uma ameaça “potencialmente muito alta”.

De acordo com o Serviço, o espião passou por um “treinamento muito longo e extenso” e difícil de ser detectado, por utilizar documentos de outro país:  “Eles podem frequentemente operar sob o radar por um longo tempo e continuar realizando atividades de inteligência. Ao se passarem por estrangeiros, podem acessar informações inacessíveis a um russo”, ressaltam as autoridades da Holanda.

A ministra do Interior, Hanke Bruins Slot, redigiu uma carta ao Parlamento holandês relatando o caso, destacando que esse tipo de vigilância e identificação de ameaças “são de grande importância, especialmente à luz da atual desenvolvimentos internacionais”. A Holanda foi um dos países da União Europeia (UE) que expulsou diplomatas russos do território após o início da invasão à Ucrânia.

Origem pobre e pai ausente

Em um documento datado de 2010, acessado pela AIVD, há um breve resumo do falso passado descrito por Sergey. No disfarce, o espião afirma que nasceu no Rio de Janeiro e que sempre viveu com dificuldades financeiras. O pai ausente, estrangeiro, cuja nacionalidade não foi divulgada, teria se mudado para o Brasil em 1988, onde conheceu a suposta mãe do espião, uma cantora que se apresentava de bar em bar entre Niterói e o Rio.

A relação entre os dois durou pouco, mas deu a luz a Viktor, o falso brasileiro, em 1989. Dois anos depois, em 1991, o pai retornaria ao Exterior, deixando a criança aos cuidados da mãe, que logo faleceria de pneumonia, e da tia que, embora esforçada, criaria Viktor em precárias condições financeiras no Rio de Janeiro, residindo em decadentes hoteis da cidade. A avó do falso brasileiro também teria falecido de câncer quando era ainda criança.

Viktor era um garoto esforçado que, na escola secundária, era apaixonado pela professora de geografia. Com aparência germânica e sotaque diferente dos demais colegas, resultado do contato com a tia e o pai estrangeiros, o agora jovem era conhecido como “gringo” entre os amigos.

Embora gostasse de estudar, ainda mais nas classes de música, Viktor teve de abandonar os estudos cedo para começar a trabalhar. O motivo seria para ajudar a comprar remédios para a adoecida tia, hospitalizada por problemas cardíacos.

Origem do passaporte

Algumas partes dessa história ainda não foram esclarecidas, como a origem do falso passaporte de Sergey e o motivo que o levou a ser deportado para o Brasil. A data em que o espião se candidatou à vaga de estágio também não foi divulgada, assim como o dia do voo de deportação ao Brasil. O Agora Europa entrou em contato com a Polícia Federal (PF) brasileira para saber o que houve com o russo após chegar ao Brasil. A reportagem ainda aguarda uma resposta. 

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