Antirracismo: protestos no Reino Unido completam quatro semanas

Protestos ocorreram em diversas cidades nos últimos quatro finais de semana. Foto: James Eades

Por Jézica Bruno, de Londres, e Daiane Vivatti, de Dublin

Mais um final de semana foi marcado por protestos antirracistas em diferentes cidades do Reino Unido, como parte do movimento Vidas Negras Importam (Black Lives Matter – BLM). Esta é a quarta semana consecutiva de mobilizações, que já reuniram milhares de pessoas, mesmo que o governo britânico tenha desencorajado os protestos pelo risco de contaminação pelo Covid-19.

O BLM têm organizado protestos pacíficos não só em Londres, capital do Reino Unido, mas em outras cidades inglesas como Brighton, Bristol, Manchester e Newcastle. Durante as manifestações, os participantes são instruídos a usarem máscaras e luvas e a filmarem qualquer intervenção da polícia.

Durante esse período de protestos, as tensões também introduziram um novo debate sobre estátuas que estão expostas no Reino Unido e que exaltam pessoas apontadas como racistas ou de um legado duvidoso. O BLM defende a retirada desses símbolos das ruas e os ativistas do Britain First, grupo da extrema-direita britânica, entendem a retirada como um ataque à história e a cultura britânica.

Em Bristol, uma estátua do escravocrata britânico Edward Colston foi retirada do pedestal, pichada e jogada em um rio durante um protesto. Depois disso, em Londres, devido ao apelo da comunidade, a estátua do comerciante de escravos Robert Milligan foi retirada do local em que estava exposta há dois séculos. Além disso, a estátua do ex-primeiro-ministro do Reino Unido Winston Churchill também foi pichada por manifestantes na capital inglesa.

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Racismo com brasileiros

Mas o racismo está muito mais próximo do que aquele que é referido em estátuas e bustos pelas ruas britânicas. Apesar do Reino Unido não aparecer em destaque em casos de racismo, segundo o estudo “Being Black in the EU”  da Fundamental Rights Agency (FRA) na União Europeia, foi constatado que imigrantes descendentes de africanos sofrem violência racista com frequência, principalmente homens jovens. Muitos dos entrevistados acreditam fazer parte de um perfil discriminatório por parte da polícia e relataram já ter sofrido ataque racista por um policial.

Baseada na Inglaterra, a brasileira Thamiris Gonzaga Santos, de 30 anos, acredita que o racismo no Reino Unido seja um pouco mais brando do que o enfrentado no Brasil, mas relata já ter sofrido comentários discriminatórios referentes ao seu tom de pele. 

“Acredito sim que exista racismo em UK e principalmente na Europa. Eu sou casada com uma pessoa da República Tcheca e sinto a diferença de pessoas me olhando e até encarando quando andamos na rua”, conta Thamiris.

Em uma comparação com o cenário de racismo vivenciado no Brasil, Thamiris acredita que a diferença se deve a pluralidade cultural que existe no Reino Unido – especialmente em Londres – e que, em função disso, é comum ver pessoas negras em diferentes posições sociais e com diferentes cargos no mercado de trabalho. 

“No Brasil, eu sentia que por conta da minha cor de pele, as pessoas automaticamente achavam que eu era a pessoa que trabalhava na loja ou que eu era de um bairro pobre. As pessoas não atravessam a rua quando veem uma pessoa de pele escura a noite aqui, no Brasil eu já vi acontecer várias vezes”, explica.

A opinião pessoal da brasileira Daniele Lima, que mora na Irlanda, é semelhante. Ela revela que se sente mais vulnerável no Brasil do que em Dublin, onde vive, mas que a diferença de raça ainda é muito presente. 

“Aqui eu nunca passei por uma abordagem policial, por mais que eu ande com o meu documento, a Garda (polícia irlandesa) tende a ser gentil em determinado ponto, mas a gente ainda vê muita diferença porque quando eu viajo por aqui, eu sou a única preta dentro do avião ou dentro de um estabelecimento”, revela.  

Daniele relata que já vivenciou uma situação de racismo explícito no trabalho, quando um cliente fez xingamentos racistas, sexistas e xenofóbicos e ela teve que o expulsar do local. O que mais chamou a atenção dela é que outros clientes que estavam no local nada fizeram para ajudar e, mesmo avisada, a polícia não compareceu no estabelecimento. 

Para a brasileira, os movimentos que cresceram em diversos países trazem novo fôlego na luta para que o racismo não seja mais aceito pela sociedade. “Quantos mais negros vão ter que morrer, vão ter que implorar pela vida? A Justiça precisa ser para todos”, desabafa. 

“Eu vi frases nos cartazes que me lembravam coisas que eu cresci escutando dos meus pais. Com o passar dos anos, você vai tratando isso como normal, mas na verdade é um normal que não é aceitável. É uma luta que foi constante, muitos ativistas foram calados com o passar dos anos e agora parece que foi uma faísca para acender todo mundo de novo”, avalia Daniele.

De Londres, Thamiris também vê os protestos exaltando um problema que sempre existiu, mas que antes não tinha tanta apelação pública. “São importantes pois fazem as pessoas refletirem se um dia foram racistas e estudar mais sobre o assunto”, afirma. “Esses protestos também deram vozes para as pessoas de pele escura dividirem as suas experiências e medos”.

Protestos pelo mundo

Desde que George Floyd foi assassinado no dia 25 de maio por um policial, em Minnesota, nos Estados Unidos, um grande movimento contra o racismo tomou forma em diferentes partes do mundo e encorajou milhares de pessoas a irem às ruas para protestar. Na Europa, os protestos se espalharam por cidades da Inglaterra, França, Alemanha, Dinamarca, Irlanda, entre outros países. O movimento também influenciou manifestações antifascistas pelo Brasil.

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