Jornalista
As principais cidades da França registraram protestos pela quinta noite consecutiva motivados pelo assassinato policial de um adolescente. O número de pessoas detidas em decorrência dos atos nesse período é de quase 3 mil, segundo dados divulgados pelo Ministério do Interior até a manhã deste domingo (2). O reforço no efetivo policial em decorrência das manifestações continuará sendo aplicado no território francês.
O ministro do Interior francês, Gérald Darmanin, escreveu nas redes sociais que a última noite foi “mais tranquila” devido à ação conjunta das forças de segurança, que contou com 45 mil policiais, sendo 7 mil apenas na capital parisiense, para tentar conter atos violentos. A mobilização da noite passada resultou na detenção de 719 pessoas, e terminou com 45 policiais feridos, segundo o Ministério. O maior número de detenções, no entanto, ocorreu na de sexta para sábado, com 1,3 mil prisões, enquanto de quinta para sexta foram 875.
Na madrugada deste domingo (2), a casa do prefeito de L’Haÿ-les-Roses, Vincent Jeanbrun, foi atacada em uma tentativa de incêndio. Em nota, Jeanbrun relatou que a esposa e dois filhos estavam dentro da residência e sofreram uma “tentativa de assassinato”. O ministro Gérald Darmanin prestou solidariedade ao prefeito e confirmou que “uma investigação por tentativa de homicídio foi aberta e recursos significativos da polícia judiciária estão mobilizados”.
Os protestos iniciaram após um policial atirar à queima-roupa no adolescente Nahel Merzouk, de 17 anos, na última terça-feira (27), em uma abordagem de trânsito em Nanterre, subúrbio de Paris. O funeral de Nahel, de origem marroquina e argelina, ocorreu nesse sábado (1º) em uma mesquita localizada na mesma cidade onde ocorreu o assassinato e onde o rapaz vivia com a mãe.
Em um vídeo compartilhado nas redes sociais, é possível ver o momento em que ocorre o disparo contra o rapaz e o veículo se desloca lentamente pela via, enquanto os policiais saem caminhando na direção oposta. O vídeo pôs em cheque a primeira versão da polícia dizendo que o oficial atirou porque estava sob risco de ser atropelado. O agente foi detido e acusado de “homicídio voluntário”.
Onda de protestos
Desde então, uma onda de protestos contra a violência policial tomou conta do país. Manifestações foram registradas em Paris, nos arredores da Capital francesa e em outras grandes cidades, como Marselha, Lyon e Estrasburgo. Ações violentas têm sido registradas durante os atos, com a queima de automóveis, pichações, destruição de prédios públicos e confrontos com a polícia, o que têm sido alvo de críticas por parte do governo, com ações de repressão.
O presidente da França, Emmanuel Macron, disse que a morte de Nahel é “imperdoável” e transmitiu solidariedade à família ressaltando que “a justiça foi imediatamente tomada”. Por outro lado, o líder francês considera a violência contra delegacias, escolas e prefeituras “injustificável”. Uma comissão para o gerenciamento da situação foi criada e o governo está atuando para reprimir protestos violentos.
Em um pronunciamento realizado nessa sexta (30), Macron pediu que os pais assumam “a responsabilidade” para manter os filhos em casa, já que um terço dos detidos nos últimos dias são jovens e adolescentes. A postura é semelhante à adotada pela primeira-ministra francesa, Élisabeth Borne, ao definir que os “atos cometidos são intoleráveis e indesculpáveis”.
A situação tem sido acompanhada por organizações internacionais e, na sexta-feira (30), o Escritório das Nações Unidas para os Direitos Humanos demonstrou preocupação com a morte de Nahel: “Este é um momento para o país abordar seriamente as profundas questões de racismo e discriminação na aplicação da lei”, destacou a porta-voz do departamento, Ravina Shamdasani.
A organização também destacou a importância de que os protestos ocorram pacificamente, e que o uso da força policial para conter manifestantes “respeite sempre os princípios da legalidade, necessidade, proporcionalidade, não discriminação, precaução e responsabilização”, complementou Ravina.
Legislação francesa
A legislação francesa passou por uma mudança em 2017, com o ajuste do código penal no que diz respeito ao uso de armas de fogo por policiais. Com isso, a polícia francesa está autorizada a atirar em cinco situações, desde que seja “em casos de absoluta necessidade e de forma estritamente proporcional”, incluindo quando o motorista ou ocupantes de um veículo ignoram uma ordem de parar em uma abordagem, representando um risco à vida ou segurança física do policial ou de outras pessoas.
