Marcha pelas ruas de Lisboa marca o Dia da Memória Trans

Centenas de pessoas marcharam pelas ruas de Lisboa. Foto: Amanda Lima/Agora Europa


Com um olho ainda roxo e dores pelo corpo, a brasileira Aisha Noir, de 27 anos, foi uma das centenas de vozes que clamou, neste sábado (20), por mais justiça, proteção e direitos para a comunidade trans. A imigrante participou de uma marcha pelas principais ruas de Lisboa que marcou o “Dia Mundial da Memória Trans”, celebrado hoje.

Aisha, natural de Belo Horizonte e moradora de Lisboa há um ano, sabe que corre o risco de entrar nas estatísticas de mortes de pessoas transexuais. No sábado passado (13), a imigrante e o namorado, também brasileiro, foram agredidos na porta de um bar na capital portuguesa.

“Quando entramos já fomos hostilizados, na saída, do nada, nos deram socos e pontapés, caímos no chão e umas 10 pessoas foram pra cima de nós com muito ódio”, conta a brasileira ao Agora Europa. Aisha relata que a agressão partiu de seguranças do estabelecimento, mas teve a participação de outras pessoas que estavam no local.

Ela pontua que, ao entrar no bar, já havia reclamado para os responsáveis do tratamento hostil pelo segurança. No entanto, nenhuma atitude foi tomada. Após a agressão, a brasileira tentou entrar novamente no local para reclamar, mas foi impedida.

Aisha ainda está com o olho roxo. Foto: Amanda Lima/Agora Europa

Depois, Aisha procurou a polícia para formalizar uma denúncia, mas não conseguiu: “Pediram documentos que comprovam minha legalização no país, mas não estava com a Manifestação de Interesse impressa na hora e não quiseram nem nos ouvir”, destaca a brasileira, que está com o pedido de legalização já realizado no país, o que assegura todos os direitos previstos na lei portuguesa. 

A imigrante também tentou fazer a denúncia em outra delegacia dias depois, mas alegaram que o sistema estava fora do ar: “Eu sinto que, pelo fato de ser trans, negra e imigrante, não consegui fazer essa denúncia nem ser ouvida”, lamenta Aisha, que diz ter medo constante de sair na rua.

A profissional, que trabalha com marketing de forma remota, não descarta voltar para a Holanda, onde morava antes de se mudar para Portugal, porque não se sente segura no território luso. O Agora Europa enviou email à Polícia de Segurança Pública (PSP) para pedir explicações sobre o caso.

União

A marcha, organizada por diversos coletivos LGBTI+, passou por ruas do Centro de Lisboa até chegar na praça em frente à prefeitura, onde foram realizados discursos e manifestações artísticas. Pelo caminho, o grupo ecoou frases como “unides no luto, unides na luta”,  “a transfobia dói” e “Estados Unidos, Brasil e Portugal, a nossa luta é internacional”.

Gil Ubaldo, integrante da organização do evento, avalia a marcha como positiva: “Foi a primeira vez que tivemos tantos coletivos envolvidos e a participação das pessoas foi muito boa”, pontua Gil.

De acordo com Ubaldo, existem muitas barreiras para as pessoas trans em Portugal: “Apesar de termos algumas leis, existem questões além, como saúde, habitação e emprego, que são negados a nós pela nossa aparência”, reflete Giu.

Para o organizador do evento, além do risco constante de morrer por causa da transfobia, todos os direitos negados diariamente são considerados mortes simbólicas: “Como existir com trabalho precário, sem abrigo, sem o essencial pra se viver?”, indaga Giu.

Protesto com a voz do Brasil 

Além da voz de Aisha, que discursou ao final do evento, o Brasil foi lembrado na marcha em Lisboa de várias formas. Além das diversas pessoas brasileiras presentes, muitas das músicas que embalaram a concentração e a marcha eram brasileiras. Mas, também, a memória das mulheres trans brasileiras mortas foram lembradas no evento.

É o caso da imigrante Gisberta Salce Júnior, torturada e assassinada na cidade do Porto em 2006. O caso se tornou um marco no país e ecoa até hoje, através de livros, peças de teatro e apresentações artísticas. No entanto, Gisberta não foi a única brasileira trans assassinada em Portugal nos últimos anos. 

Angelita Seixas Correia, de 31 anos, foi morta em janeiro deste ano próximo à cidade do Porto. O corpo foi encontrado no mar após 10 dias de buscas. Desde então, quase 10 meses depois do crime, a polícia não anunciou publicamente nenhum desfecho ou detalhes da investigação. O Agora Europa enviou diversos e-mails à Polícia Judiciária, mas não houve nenhum retorno. 

Capacitação para profissionais de segurança

Neste sábado, o governo de Portugal anunciou uma capacitação para profissionais de segurança que atuam no atendimento de casos relacionados com a comunidade LGTBI+. De acordo com comunicado oficial, outro objetivo é “a prevenção da violência homofóbica e transfóbica e também para uma melhoria na atuação e investigação em situações de crime contra pessoas LGBTI”.

Ainda segundo o governo, a iniciativa “responde à reivindicações de organizações da sociedade e releva o compromisso do Governo em matéria de promoção e proteção dos direitos das pessoas LGBTI”. Em Portugal, não existem estatísticas oficiais do governo disponíveis sobre os casos de crimes em que a comunidade LGTBI+ é vítima. 

O projeto “Trans Murder Monitoring” (Monitoramento de assassinatos trans, em tradução literal), realiza levantamentos de pessoas trans em todo o mundo. No site, consta a morte da brasileira Angelita em Portugal.

Na Europa, a iniciativa contabiliza, até setembro deste ano, três casos na França,  outros três assassinatos na Itália e um caso na Grécia. Em 2020, o projeto reportou outros 11 casos no continente Europeu, mesmo número do ano anterior.

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