Comissão revela que 216 mil menores foram abusados em igrejas francesas nos últimos 70 anos

A Comissão Independente sobre Abusos Sexuais na Igreja Católica, a Ciase, apresentou nesta terça-feira (5), em Paris, o relatório sobre pedofilia, fruto de dois anos e meio de investigações dentro das instituições religiosas francesas. O estudo revelou que 216 mil crianças ou adolescentes de até 17 anos incompletos foram vítimas de pedofilia por sacerdotes, padres e outros membros do clero francês nos últimos 70 anos. Esse número sobe para 330 mil menores abusados quando contabilizadas pessoas laicas trabalhando junto à Igreja, como professores, vigilantes, responsáveis por grupos de jovens, entre outros.

Com 485 páginas e mais de 2 mil anexos, o relatório Sauvé, que leva o nome de Jean-Marc Sauvé, ex-vice-presidente do Conselho de Estado da França e presidente da Ciase, foi elaborado através de 6.471 contatos com vítimas por meio da organização France Victimes, 1.628 respostas a questionários, 2.819 cartas, 243 entrevistas com vítimas e 11 entrevistas com agressores clericais. Também foram verificados arquivos de 31 dioceses e 15 institutos da Igreja na França, arquivos judiciais e policiais, matérias na imprensa, entre outros. Houve ainda uma investigação com 28 mil membros da sociedade civil.

A Ciase estima entre 2,9 mil e 3,2 mil o número de agressores – homens, padres ou religiosos – entre os anos 1950 e 2020. O número representa de 2,5% a 2,8% dos 115 mil padres e religiosos que atuaram nas igrejas francesas, nas últimas sete décadas, abordados pelo estudo.

O relatório também mostrou que meninos são “massivamente” o alvo de pedofilia nas igrejas, de acordo com Jean-Marc Sauvé, presidente da Comissão. O gênero representa cerca de 80% dos casos descobertos, sobretudo na faixa entre 10 e 13 anos.  “Esses números são esmagadores e não podem, de forma alguma, ficar sem resposta”, frisou.

“Vergonha” e pedidos de perdão

Presentes no momento da apresentação do relatório, o presidente da Conferência dos Bispos da França, Dom Eric de Moulins-Beaufort e a presidente da Conferência de Religiosos e Religiosas da França, Irmã Véronique Margron, receberam com desolação o resultado das investigações e pediram diversas vezes perdão às vítimas.

“Seu relatório é difícil, é severo. Ouvimos as vozes das vítimas, ouvimos os seus números, estão além do que poderíamos imaginar. É realmente insuportável. Expresso minha vergonha, meu pavor, minha determinação de agir. Vocês, vítimas, algumas das quais conheço pelo nome, meu desejo neste dia é pedir seu perdão”, expressou Dom Eric de Moulins-Beaufort. Ele também convidou os católicos a lerem o relatório: “O tempo de ambiguidades e ingenuidades acabou”, marcou.

Irmã Margron definiu os abusos sexuais nas igrejas como “crimes contra a humanidade do sujeito íntimo, crente e amoroso. Como superar isso? Não sei.”, indagou. A religiosa finalizou sua fala dirigindo a palavra aos membros da Ciase: “É muito difícil agradecê-los por tal revelação, mas o faço com gratidão”.

Sugestões de mudanças na Igreja Católica

Jean-Marc Sauvé destacou a importância da Igreja Católica para a sociedade francesa, entretanto disse que não haverá um futuro comum “sem o trabalho da verdade, perdão e reconciliação” por parte da Igreja e dos fiéis. “Contribuímos tanto quanto possível para o trabalho da verdade. Cabe à Igreja apoderar-se disso e persegui-lo, a fim de reconquistar a confiança dos fiéis e o respeito pela nossa sociedade”.

A Comissão elencou ainda diversas orientações para o futuro da Igreja na França, como: reformar os processos penais dentro da organização, ouvir as vítimas, trabalhar na formação de padres e religiosos, incluir pessoas laicas no governo da Igreja, além de uma política de reconhecimento e de compensação financeira específica para cada vítima.

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