Ucrânia: fronteiras lotadas e desespero de quem tenta deixar o país

A criadora do grupo Frente Brazucra começou a prestar ajuda na cidade polonesa de Medyka, na fronteira com a Polônia.
Foto: Divulgação

Fome, frio, escassez de medicamentos e falta de segurança fazem parte da realidade de milhares de pessoas que estão nas fronteiras da Ucrânia lutando para deixar o país após o início da invasão russa. Essa foi a realidade encontrada pela paulista Clara Magalhães Martins, criadora de um grupo de ajuda humanitária para retirar brasileiros do território ucraniano

Clara, que mora na cidade de Leipzig, no leste da Alemanha, alugou um carro no sábado (26) para se dirigir até a cidade de Medyka, na Polônia. Neste domingo (27), a imigrante conseguiu entrar na Ucrânia para levar mantimentos e fazer o resgate de três brasileiros, uma ucraniana e um nigeriano.

“Eu atravessei a fronteira e encontrei grupos de inúmeras nacionalidades sem apoio. Muitas mulheres, crianças, famílias sendo separadas dos homens. Homens quebrados, chorando, implorando pra que eu levasse eles no carro embora”, conta Clara ao Agora Europa. A paulista ainda está no trajeto para sair do território ucraniano pela Hungria.

A imigrante diz que a primeira tentativa foi feita pela Eslováquia, mas foram seis horas aguardando em uma fila com mais de 50 quilômetros. Hoje, a Frente BrazUcra” divulgou uma lista de resgate com 24 brasileiros em seis diferentes localizações. Mais de 120 cidadãos do Brasil e que estão na Ucrânia já entraram em contato com o grupo precisando de auxílio.

“Eu estou fazendo o que precisa ser feito. A galera chega do outro lado desamparada, confusa, sem ajuda. Acho que a melhor coisa que você pode ter nesse momento, pro psicológico, é encontrar alguém que fala a tua língua”, explicou Clara. Para ela, criar esse grupo e ir ajudar é “o mínimo aceitável como um ser humano”.

Entre as iniciativas do grupo está a compra de mantimentos para doar a quem atravessa a fronteira. Foto: Divulgação

Junto à voluntária, dezenas de brasileiros se mobilizam por meio das redes sociais em um grupo que está mapeando a localização de quem ainda está na Ucrânia e precisa de ajuda para sair. São repassadas rotas, informações sobre a saída de trens das principais cidades e também a organização de como auxiliar quem consegue chegar em outros países. 

Muitas pessoas estão oferecendo hospedagem na Polônia, Romênia, Hungria, Eslováquia, Alemanha, entre outros países. Há também quem esteja indo de carro para dar caronas entre a fronteira e outras cidades. 

Para comprar mantimentos, lonas e combustível, o grupo criou uma “vaquinha online”, onde está recebendo doações. De acordo com os organizadores, quem está no Brasil e quiser colaborar, pode compartilhar as informações com mais pessoas para que a corrente se torne ainda mais forte, ou ainda fazer contribuições financeiras por meio do link oficial. Além disso, o pedido é para que não sejam compartilhadas notícias falsas ou conteúdos que gerem desinformação.

O número de refugiados que saíram do território ucraniano e cruzaram para a Polônia, Hungria, Romênia, Moldávia e outros países ultrapassa 360 mil, segundo informações do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. Inúmeros relatos divulgados nas redes sociais, no entanto, são de pessoas que estão próximas à fronteira e já tentam atravessar a pé para a Polônia há mais de 40 horas.

“Quando ouvi a primeira explosão, já sabia que é a guerra”

A ucraniana e naturalizada brasileira Alexandra Gurdzha foi uma das primeiras a receber auxílio do grupo, que conseguiu uma acomodação para a chegada em Bucareste, capital da Romênia. Sasha, como é carinhosamente chamada pelos amigos, precisou deixar a cidade de Odessa, localizada no litoral sudoeste da Ucrânia, onde mora há cinco anos. 

O marido, que é ucraniano, levou Sasha de carro até a fronteira junto com duas amigas, uma criança de 9 anos e um adolescente de 16 na última sexta-feira (25). No entanto, ele não pôde sair junto com ela, pois os homens entre 18 e 60 anos estão proibidos de deixar o país: “Ele está sozinho lá, me sinto mal por isso. Questiono toda hora minha decisão de sair, mas eu fiquei em pânico, igual a todos”, relata em entrevista ao Agora Europa.

Sasha estava em Odessa precisou se despedir do marido ucraniano ao deixar o país. Foto: Arquivo pessoal

Sasha conta que jamais vai esquecer a noite da invasão: “Quando ouvi a primeira explosão, já sabia que é a guerra, um barulho que não dá pra confundir por nada. Eu fiquei paralisada na cama”. Na cidade, o clima foi de pânico, pessoas chorando com malas pelas ruas e filas nos supermercados e postos de gasolina: “Meu marido saiu para abastecer o tanque às 6 da manhã e voltou só às 4 da tarde”, relembra Sasha.

A brasileira, que viveu por 20 anos no interior de São Paulo, deixou a Ucrânia a pé pela fronteira com a Moldávia, e seguiu da cidade de Tiraspol até a capital do país, Chisinau. De lá, foi de ônibus junto com as amigas até Bucareste. Segundo Sasha, os últimos dias foram de insônia e muito medo. 

O futuro ainda é incerto. Os três filhos de Sasha estão no Brasil e no Uruguai fazendo uma corrente de apoio e arrecadando doações para ajudar, mas ela não quer deixar a Europa sem o marido: “Quero ficar por perto, nem sei o que fazer. Talvez vou pra França, tenho amigos brasileiros lá que me ofereceram para ficar na casa deles”, avalia a imigrante.

Junto com as amigas, Sasha conseguiu chegar na capital da Romênia depois de viajar por uma noite inteira. Foto: Arquivo pessoal

“Não é uma decisão tão fácil assim”

Um grupo de seis brasileiras que moram na cidade de Odessa está analisando em conjunto as possibilidades para deixar a Ucrânia. No entanto, decidiram permanecer no país por enquanto. A baiana Fabíola Ribeiro disse que, tanto quanto ficar, quanto sair, “não é uma decisão tão fácil assim”. Muitas delas têm filhos pequenos e os maridos não podem deixar a Ucrânia.

“Existem outros fatores que fazem a gente ficar, porque não é tão fácil você se meter em uma fronteira em situação de guerra, pela quantidade de pessoas que também estão saindo no momento”, explica Fabíola. A brasileira tem um filho com sete anos de idade e acredita que, no momento, é mais seguro permanecer em casa. Um plano de evacuação, no entanto, está sendo avaliado dependendo da situação nos próximos dias.

Embaixada pede que brasileiros enviem localização

Na tarde deste domingo (27), a Embaixada do Brasil em Kiev recomendou às pessoas que estão tentando deixar a Ucrânia para que a saída seja por meio de transporte ferroviário na direção oeste. Os principais destinos são Varsóvia ou Chelm, na Polônia, ou ainda a cidade de Chop, no território ucraniano, onde há possibilidade de troca de trem com destino final na Hungria. “Ainda que com alguns atrasos, os trens têm funcionado de forma bastante frequente e segura na maior parte do país”, disse o comunicado. 

O órgão enfatizou ainda que os horários de partida têm sido confirmados de última hora e, com isso, o ideal é que os brasileiros se dirijam às estações quando não houver toque de recolher e esperem os anúncios no local. As viagens são gratuitas e não é necessário comprar bilhetes.

A Embaixada ainda está solicitando aos brasileiros que deixaram ou que pretendem deixar a Ucrânia para os países vizinhos no Oeste (Polônia, Eslováquia, Hungria, Romênia e Moldávia) para que preencham este formulário. O objetivo que é auxiliar no acolhimento dos cidadãos após entrada nos outros territórios.

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