Desemprego e mudanças sociais marcam um ano de pandemia na Espanha

A pandemia que mudou o estilo de vida dos espanhóis e silenciou Madri. Foto: Thais Baldasso

A terceira reportagem da série especial do Agora Europa “Pandemia: Ano 1” mostra que a Espanha, vibrante e cosmopolita, silenciou. Atualmente, o país enfrenta uma taxa de desemprego de 16%, uma das mais altas da Europa.

“A vida mudou muito na Espanha, não disfrutamos mais da mesma liberdade, já não nos sentimos confortáveis em nenhum lugar”, desabafa Lola Castro Soriano, administradora. “Reduzimos os encontros sociais, trabalhamos em casa, não vemos a família há meses”, acrescenta a arquiteta Maria Brime. Os residentes da Espanha, duramente castigados pelos efeitos da pandemia do coronavírus, não estavam preparados para uma mudança tão radical de vida. “A sensação de impotência diante de uma ameaça que resiste ao tempo, entristece, e em uma cidade como Madri, sempre tão viva e ensolarada, é ainda mais desanimador”, relata a advogada Eva González Lobato.

Foi no dia 14 de março de 2020, quando o presidente de Governo da Espanha, Pedro Sánchez, decretou estado de alarme em todo o território nacional, que a população acordou para a gravidade do novo vírus. Neste dia, o país já contabilizava 4.500 infectados e 200 mortos em decorrência da Covid-19.

A medida estabelecia, por 15 dias, prorrogáveis, o confinamento domiciliário da população e o fechamento total de bares, restaurantes, hotéis, museus, locais públicos e instalações esportivas. Apenas serviços essenciais podiam funcionar, como supermercados, farmácias e postos de combustíveis. Já os colégios encerraram as atividades ainda no dia 11 de março. Os controles de mobilidade eram feitos por policiais e drones e, quem descumprisse a ordem, pagava multa. O país até então vibrante, ruidoso e cosmopolita, silenciou.

O lockdown nacional foi decretado somente duas semanas depois da descoberta do primeiro caso positivo na Espanha, em 26 de fevereiro de 2020, durante os primeiros testes de coronavírus realizados em pessoas com pneumonia de origem desconhecida. Segundo especialistas, o vírus ficou pelo menos quatro semanas circulando no país sem ser detectado.

Em 17 de março, apenas três dias depois do decreto oficial, o Governo espanhol confirmava 490 mortes por coronavírus. Em dez dias, o número de pessoas contaminadas já alcançava 20 mil e a Espanha era o segundo país da Europa com o maior número de casos positivos de Covid-19.

O sistema de saúde, não preparado para a alta demanda de pacientes internados, começou a apresentar falta de leitos e de materiais sanitários e o esgotamento dos profissionais. Como medida de urgência, hotéis e um grande centro de convenções foram desalojados para atender aos contaminados. E a população em geral já apresentava sinais de estresse emocional. Em abril, a média de mortos chegava a mil por dia e Madri era a cidade com o maior número de pessoas infectadas. No dia 24 de março, o Palacio de Hielo, um ponto turístico da Capital espanhola, foi desativado para abrigar os corpos das vítimas da doença.

As pessoas maiores de 60 anos, com doenças pré-existentes, foram as mais atingidas. Especialmente as que viviam em uma das 5.400 residências de idosos que existem na Espanha, onde 29.408 pessoas perderam a batalha contra o novo vírus sem terem, ao menos, feito um só teste de coronavírus. Além disso, pelo menos 86 mil idosos foram infectados, de março de 2020 a fevereiro de 2021.  Os dados oficiais, a nível nacional, foram conhecidos somente neste mês de março.

Uma trégua no verão espanhol

O desconfinamento iniciou por etapas, no dia 24 de maio, quando o país totalizava 26 mil óbitos de Covid-19 e mais de 220.000 diagnósticos positivos desde o início da pandemia. Mas o estado de alarme durou até o dia 21 de junho, sendo renovado quinzenalmente. A partir desta data, a gestão da pandemia passou a ser feita pelas comunidades autônomas.

No dia 01 de julho, nenhuma morte por Covid-19 foi registrada na Espanha e, com isso, o Governo central passou a estimular a população a sair às ruas para ativar a economia. E foi o que a população fez, relaxou os cuidados sanitários. E, em menos de um mês, o Ministério da Saúde anunciava a chegada da segunda onda de Covid-19 na Espanha, com o aumento do número de contágios em todo País.  Mesmo assim, o governo central não endureceu as medidas de restrição, apesar da pressão de quase todas as comunidades autônomas.

Madri com medidas diferenciadas

Apesar do número crescente de contágios na capital, o Governo regional de Madri era contrário a um novo confinamento obrigatório, por entender que afetava direitos e liberdades individuais. E iniciou um enfrentamento direto com o governo central. Por isso, no dia 9 de outubro, o Governo central decretou novo estado de alarme válido apenas para a capital Madri e mais oito cidades do seu entorno, por 15 dias.

A população podia sair às ruas, desde que dentro de seus territórios. A comunidade autônoma de Madri ficou isolada. As reuniões familiares e entre amigos ficaram limitadas a seis pessoas, e bares e restaurantes só podiam atender com 50% de capacidade. No dia 24 do mesmo mês, o Governo regional determinou o toque de recolher na capital entre meia noite e seis horas da manhã e passou a limitar a circulação de pessoas nos bairros que apresentavam maior incidência do coronavírus.

Segundo decreto estado de alarme até 09 maio de 2021

No dia 25 de outubro, o Governo central voltou a decretar estado de alarme em toda a Espanha com validade até o dia 09 de novembro. Diferente da primeira vez, agora a população podia sair de casa, mas com restrições de locais e horários. Também foi aplicado o toque de recolher noturno a partir do dia 27 de outubro.

No entanto, no dia 3 de novembro, antes do prazo final da medida, o Conselho de Ministros aprovou a prorrogação do estado de alarme até 9 de maio de 2021. Desde então, a população espanhola está com a mobilidade controlada, perimetralmente, nas comunidades autônomas, com limitação de público e horários nos espaços públicos, privados e lugares de culto, e com o toque de recolher obrigatório das 23h às 6h da manhã (na maioria das cidades).

Os impactos da pandemia

O mercado de trabalho sofreu profundas transformações durante a pandemia. O teletrabalho foi regularizado no país e, hoje, um ano depois, a maioria das empresas segue com os empregados atuando de maneira remota. A nova realidade obrigou os empregadores a investirem em novas plataformas digitais, organizar rotinas e encontrar possibilidades para avaliar a produtividade dos funcionários. Mas os trabalhadores também tiveram que encontrar meios de se adaptar.

Responsável pelo setor de desenvolvimento de negócios em uma grande organização, Eva Lobato, relata que não foi fácil adequar um espaço em casa para trabalhar. “Estou exercendo minhas atividades remotamente desde março. Minha rotina foi forçosamente adaptada à nova realidade. E não há previsão de retorno à empresa que até já entregou parte de suas instalações físicas”, destaca.

Já a arquiteta Maria Brime fechou o escritório no início da pandemia, enviou os funcionários para casa, mas segue honrando os compromissos financeiros. “Vamos ao escritório apenas para reuniões ou para consultar materiais de trabalho. A rotina online funciona, mas estar sozinha em casa todo dia, conectada, é desgastante. Nada substitui o contato presencial. E ainda não temos previsão de retorno”, relata.

A situação foi ainda mais difícil para quem tem filhos, como é o caso de Lola Castro Soriano, que trabalha no setor administrativo de uma empresa farmacêutica. “Sou uma mãe separada com duas filhas. Quando fecharam os colégios e minha empresa estabeleceu o trabalho remoto, me senti desamparada. Eu tive que conciliar oito horas de produtividade em frente ao computador com as tarefas de aula das meninas, em diferentes aplicações. As escolas ainda não dispunham de plataformas virtuais. Foi desesperador. Me senti abandonada e incompreendida pelo sistema e em desvantagem, sem nenhum tipo de ajuda”, relata Lola.

Desemprego

Mas nem todo mundo conseguiu manter o emprego durante a pandemia, especialmente no setor de serviços. O fechamento de vagas começou pelos contratos temporários, responsáveis por quase dois em cada três empregos eliminados. Entre o período de lockdown, as medidas restritivas, o confinamento noturno e as limitações de horário e público, muitos estabelecimentos acabaram por fechar as portas em definitivo.

O setor de bares e restaurantes, por exemplo, que representa 6% do PIB espanhol, terminou o ano de 2020 com uma perda no faturamento superior a 50% em relação ao ano anterior, segundo o presidente de Hostelería de España, José Luiz Yzuel. A queda no volume de negócios alcançou 70 bilhões de euros  e resultou no fechamento de 85 mil locais e a perda de mais de um milhão de empregos diretos e indiretos. “O momento mais crítico foi nos meses de lockdown, entre abril e maio, com o fechamento total dos bares, restaurantes e cafeterias. O faturamento caiu 90%. Neste período permaneceram abertos apenas os serviços de entrega à domicílio”, relata Yzuel.

Somando todos os setores da economia, a taxa de desemprego na Espanha, hoje, é de 16%. O número de pessoas fora do mercado de trabalho superou os quatro milhões, segundo dados oficiais do Serviço Público de Emprego Estatal. E os jovens são um dos grupos mais castigados pela crise. O nível de desemprego entre menores de 34 anos subiu mais de 20%.

Além disso, cerca de 900 mil funcionários estão em ERTE, segundo dados divulgados pelo Ministério de Assuntos Econômicos. Um programa governamental de regulação temporária de trabalho que combina recursos públicos e privados para manter o pagamento de salários enquanto as empresas estão fechadas. O problema é que são tantos nessa situação – o número chegou a quase 3 milhões no auge da pandemia -, que muitos ainda não cobraram nenhuma parcela desde o começo do programa. O que se traduz em mais pobreza, mais fome e mais pessoas precisando de ajuda.

Fome

A pandemia do coronavírus também provocou uma crise alimentária sem precedentes. Milhares de pessoas perderam tudo: moradia, emprego, renda; e, sem condições financeiras nem mesmo para garantir o sustento diário da família, foram obrigadas a pedir ajuda para atender as necessidades básicas.

As chamadas “colas da hambre” na Espanha, ou filas da fome traduzidas para o português, aumentaram no país. Pessoas até então estáveis financeiramente passaram a fazer parte das listas de auxílio das instituições. Antigos doadores, agora recebem um prato de comida. Segundo dados divulgados pela Prefeitura de Madri, entre os mais necessitados estão pessoas de classe média, mulheres que hoje não conseguem sobreviver sozinhas com filhos, e jovens. O perfil dos que se candidatam para receber ajudas sociais, atualmente, baixou dos 71 anos, em média, para 41 anos de idade.

Graças ao trabalho voluntário, às constantes campanhas e às doações de empresas privadas, organizações de auxílio mantém os estoques de comida em dia para seguir alimentando quem mais precisa. Somente o Banco de Alimentos de Madri, que arrecada produtos para serem distribuídos por 565 entidades beneficentes, iniciou o ano de 2021 com mais de 186 mil pessoas atendidas em toda Comunidade Autônoma. Segundo Elena Doria, diretora do gabinete de imprensa, a demanda cresceu 40%. “Pela primeira vez e devido à pandemia, tivemos que comprar alimentos, porque as doações não eram suficientes. A crise evidenciou a vulnerabilidade de muitas famílias. É triste ver o desespero dos pais por um prato de comida”, destaca Elena.

Efeitos psicológicos

“Antes da pandemia saía muito com amigos, de diferentes núcleos sociais, frequentava eventos familiares, disfrutava da vida cultural em Madri. Abraçava e beijava as pessoas queridas, sem medo. Agora faz um ano que não vejo de perto meus colegas de trabalho, por exemplo, e reduzi meu círculo social a media dúzia de pessoas, a fim de evitar a proliferação do vírus. Agora, em todos os locais, a entrada de pessoas é limitada”, relata Eva, entristecida.

Passado mais de um ano do início da pandemia, ainda perduram os sentimentos de tristeza, impotência e insegurança. A população já se habitou a viver com limitações, a seguir as regras sanitárias, mas está cansada. O isolamento social mudou o comportamento dos espanhóis, tão acostumados a viver a vida nas ruas.

“Parei de brincar, de rir, de compartilhar bons momentos com as minhas filhas. Perdi a alegria e o entusiasmo. Esta nova maneira de nos relacionarmos, cheia de restrições, vem acompanhada de medo e restringe muito os círculos sociais. É preciso seguir vivendo, mas sinto saudades da liberdade que tínhamos antes; de escolher onde e com quem sair”, desabafa Lola.

O início da vacinação contra a Covid-19 representou um respiro, mas ainda não há previsão, no entanto, de quando o país vai conseguir recuperar as perdas econômicas e a confiança da população. Até esse sábado (13), 5,3 milhões de pessoas já foram imunizadas na Espanha; dessas, 1,5 milhões com as duas doses.

Na quarta reportagem da série “Pandemia: Ano 1”, imigrantes enfrentam a falta de empregos e dificuldades para se legalizarem em Portugal.

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