Pelos trilhos: vidas salvas e acolhimento em meio à guerra

Na estação de Przemyśl, refugiados recebem acolhimento ao chegar na Polônia. Foto: Daiane Vivatti

*Enviada especial à Polônia.

Ao lado dos trilhos, a inquietação de quem espera. Seja pela chance de entrar no vagão e partir em busca de segurança, ou de avistar um novo trem prestes a chegar e oferecer conforto para quem desembarca em um momento tão difícil. A guerra deixa a tristeza e o cansaço estampados nos rostos de quem precisa deixar quase tudo para trás.

De um lado da fronteira, em território ucraniano, as estações ferroviárias se tornaram a principal esperança para quem precisa deixar áreas de conflito ou o país. Do outro lado, na Polônia, pessoas prontas para receber e acolher quem mais necessita.

“Hoje, a rede ferroviária tornou-se verdadeiramente um sistema de suporte à vida do país. O tráfego ferroviário significa vida”, destacou o primeiro-ministro ucraniano, Denys Shmyhal, em uma homenagem aos funcionários da companhia nacional de trens realizada nesse domingo (20), em Kiev. Chamados de “Heróis de Ferro”, os trabalhadores realizam a evacuação de pessoas, além do transporte de mercadorias para as cidades sitiadas devido aos ataques.

Primeiro-ministro ucraniano encontra trabalhadores ferroviários na estação de Kiev. Foto: divulgação

Semanalmente, milhões de residentes na Ucrânia utilizam gratuitamente os serviços da companhia ferroviária nacional para deixar cidades que se tornaram áreas de risco com a invasão russa. A oferta de trens de evacuação ultrapassa uma centena todos os dias. Os principais destinos estão em cidades mais seguras, dentro do próprio país, ou em trechos que possibilitam a ida para nações vizinhas, como Polônia, Hungria, Romênia e República Checa.

Nesses países, as estações ferroviárias se tornaram pontos de acolhimento para refugiados e a solidariedade está presente em todos os lados. A cidade de Przemyśl, no sudoeste da Polônia, é uma das principais rotas de chegada para quem parte de Lviv, no oeste ucraniano. Somente nesta terça-feira (21), quatro horários de trem foram disponibilizados para fazer o trajeto.

Chegadas, partidas e ajuda

O barulho de conversa junto aos anúncios sobre partidas e chegadas, que é tradicional em saguões das estações de trem, ganhou um novo tom: o da empatia e ajuda. Ao entrar na sala principal da estação de Przemyśl, os idiomas se misturam e dezenas de pessoas conversam em ucraniano, inglês, russo, espanhol, alemão, holandês, entre outros. Para facilitar na comunicação, dezenas de voluntários utilizam coletes laranjas e amarelos identificados com as línguas que falam e podem prestar suporte.

Os cartazes com informações e ofertas de auxílio estão por todos os lados. Logo na entrada, um senhor com cerca de sessenta anos carrega uma folha com os dizeres “offer home” (“ofereço casa”), em inglês. Um pouco mais à frente, três pessoas distribuem embalagens com uma massa quente, recém preparada. Também há um balcão com café, pães e frutas, entre outras bebidas e alimentos.

Uma senhora pergunta ansiosa a um voluntário a que horas o trem vai chegar, pois está atrasado. O rapaz acalma dizendo que há confirmação de que o comboio está a caminho, mas sempre demora “por conta do tempo que está levando para passar na área de imigração da fronteira”. Do outro lado, uma equipe de televisão documenta a chegada de refugiados.

As demais salas da estação foram transformadas em dormitórios improvisados para crianças e mulheres ou locais para a triagem e distribuição de doações. Já as famílias com homens são encaminhadas para outros pontos de acolhimento montados principalmente em escolas próximas. Mesmo quem não chega de trem e atravessa a fronteira de Medyka a pé é encaminhado à estação para receber auxílio.

Voluntários organizam doações em uma das salas da estação de Przemyśl. Foto: Daiane Vivatti

Esse é o caso da família de Dália, que mora em Bruxelas e foi até a fronteira de Medyka para buscar a mãe. A ucraniana deixou Kiev e foi para o oeste do país, onde fez a travessia a pé. Acompanhada de uma familiar e de uma cachorrinha, a senhora caminhou por cerca de três horas e depois recebeu acolhimento na estação de Przemyśl. Na manhã seguinte, o trio partiu para a Varsóvia, capital da Polônia, para depois seguir viagem à Bélgica.

Auxílio para seguir viagem

Devido ao grande fluxo de refugiados chegando, no entanto, geralmente as pessoas podem passar uma ou duas noite no local e, depois, são encaminhadas a outras cidades. Esse é o momento em que grupos de voluntários entram em ação para auxiliar quem não sabe para onde ir.

Sentada atrás de uma pequena mesa no saguão da estação de trem, identificada com bandeiras da Espanha, a voluntária Llanos García aguarda a chegada de ucranianos que serão auxiliados pela Fundación juntos por la vida (em espanhol), de Valência. “Estamos ajudando a tirar as famílias de dentro da Ucrânia e, depois, vamos levá-los de ônibus ou avião”, explica Llanos, uma das patronas da organização.

A relação da organização com a Ucrânia, no entanto, não é recente. Com mais de 25 anos de existência, a fundação foi criada pra realizar o acolhimento familiar temporário de crianças ucranianas da região de Chernobyl. As famílias espanholas recebem crianças e adolescentes afetados pelo desastre nuclear durante as férias de verão e no Natal. O objetivo é melhorar a qualidade de vida, saindo da zona afetada pela radiação, e também para promover um intercâmbio cultural e de valores.

A voluntária Llanos García conversa aguarda a chegada de ucranianos que vão receber abrigo na Espanha. Foto: Daiane Vivatti

“Os vínculos que criamos com essas crianças, são como nossos filhos. Eu, por exemplo, recebi uma por 17 anos”, descreve Llanos. Com o início da guerra, a organização viu a necessidade de ampliar ainda mais as redes de apoio às famílias ucranianas. Além de ajudar em Przemyśl, na Polônia, há voluntários espalhados em outras fronteiras e também na Espanha para organizar casas onde as pessoas possam ser acolhidas.

Desde o início da guerra, mais de 400 pessoas foram diretamente auxiliadas pela organização. “Acredito que qualquer pequeno grão que contribuirmos, qualquer ser humano do planeta, sempre é bom, e muitas pequenas coisas fazem uma grande coisa”, analisa Llanos. “A recompensa é quando uma família te abraça e te agradece por levá-la à Espanha. Isso não tem preço”, finaliza a espanhola.

Esta reportagem faz parte da série Em busca de refúgio, que relata a luta de quem precisa deixar a Ucrânia devido à guerra no país. Leia também: Lviv: a cidade que luta para acomodar 200 mil desabrigados pela guerra.

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