Êxodo recorde: Reino Unido perde mais de um milhão em população na pandemia

A capital, Londres, foi a mais afetada pela queda populacional durante a pandemia. (Foto: SplitShire)

A quinta e última reportagem da série especial do Agora Europa “Pandemia: Ano 1” evidencia a perda populacional recorde enfrentada pelo Reino Unido. O êxodo é o maior desde a Segunda Guerra Mundial.

Há exatamente um ano, o Reino Unido mudava o seu discurso e preparava a população para uma batalha ainda pouco clara contra o coronavírus. Em 16 de março, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, que inicialmente minimizou a gravidade do novo vírus, pediu à população que o contato não essencial entre as pessoas fosse evitado. Foi somente em 23 de março, no entanto, que o primeiro lockdown nacional foi anunciado, sendo a nação uma das últimas da Europa a declarar a medida. O que ainda ninguém sabia é que a pandemia mudaria o trajeto de milhares de pessoas colocando o território em um cenário de êxodo que não se via desde a Segunda Guerra Mundial.

Desde o início, os primeiros sinais já apontavam para um cenário difícil na batalha contra a Covid-19. Em um pronunciamento no dia 3 de março de 2020, no entanto, Boris Johnson contou que havia visitado um hospital onde tinha pessoas contaminadas com a doença e destacou: “eu apertei a mão de todos”. A orientação do governo era para que as pessoas lavassem as mãos. Depois de uma semana, porém, com os casos aumentando, Johnson trouxe um panorama mais pessimista e disse que muitas famílias poderiam “perder entes queridos antes do tempo”. A partir daí, o discurso manteve-se nessa perspectiva.

Um ano depois, após mais de 150 mil mortes por coronavírus e três lockdown, o caminho da pandemia tornou-se mais claro. Com três vacinas aprovadas e mais de 24 milhões de pessoas imunizadas com a primeira dose, há indícios de esperança. Mas a incerteza que acompanhou a população durante todo o período, refletida nos discursos do governo, na perda de empregos e na instabilidade econômica presente em todos os setores, ainda persiste. E isso trouxe mudanças.

Entre o terceiro trimestre de 2019 e o mesmo período de 2020, cerca de 1,3 milhão de pessoas deixaram o Reino Unido e retornaram aos seus países de origem, conforme dados do Centro de Excelência de Estatísticas Econômicas (ESCOE, em inglês). A capital, Londres, foi a mais afetada e teve a maior queda populacional desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

A economia do Reino Unido encolheu quase 10%, a maior diminuição em mais de 300 anos. No segundo trimestre de 2020, em comparação com os três primeiros meses do ano, o Produto Interno Bruto (PIB) do Reino Unido teve queda de 20,4% e o país entrou oficialmente em recessão.

Desde março do ano passado, mais de 700 mil pessoas perderam seus empregos. Quem sofreu com as demissões e não conseguiu acessar benefícios sociais como o Universal Credit, que substituiu outros seis benefícios existentes anteriormente e já atendia 6 milhões de pessoas em janeiro deste ano, não teve muitas escolhas a fazer além de deixar o país.

Êxodo gerou decisões difíceis a serem tomadas

Por outro lado, quem teve a possibilidade de trabalhar de casa pôde escolher permanecer em países com custo de vida mais baixo durante o confinamento, sem perder o posto de trabalho. O período também apareceu como uma oportunidade para imigrantes estarem próximos da família, voltando para a terra natal, e ter o apoio emocional necessário em um momento de incertezas.

A brasileira Beatriz Valentini Oliveira, de 23 anos, foi uma das milhares de pessoas que deixou o Reino Unido durante a pandemia. Depois de morar em Londres e Essex por dois anos, enquanto trabalhava e estudava inglês, ela decidiu retornar para Maringá, no Paraná, em 21 de dezembro de 2020.

“Meu plano era vir (para o Brasil) apenas passar um mês de férias e voltar para Londres, continuando meu trabalho e estudos. Mas com a pandemia, fazendo dois anos e dois meses longe da minha família, intensificou esse sentimento de ‘faltando algo’, até eu perceber que eu precisava passar um tempo com a minha família”, lembra a jovem. “E por conta da instabilidade, eu optei por ficar aqui, até as coisas se organizarem, pois na questão psicológica é preferível passar a quarentena ao lado da minha família do que sozinha”.

A decisão exigiu coragem e não foi fácil, segundo ela, mas ainda assim, Beatriz acredita que valeu a pena. “Foi muito pela emoção, eu tinha um emprego key worker na Amazon, confesso que não foi fácil, mas passar o fim de ano em lockdown e trabalhando me incentivou mais ainda na decisão”, recorda a brasileira.

Beatriz morou dois anos na Inglaterra, antes de retornar para o Brasil. (Foto: Arquivo pessoal)

Beatriz tem passagem garantida de volta para a Inglaterra para o dia 2 de maio. O bilhete foi comprado também considerando as novas regras trazidas pelo Brexit, que permitem o retorno de cidadãos com passaporte europeu ao território, desde que tenham feito a aplicação para o EU Settlement Scheme, sistema que concede residência temporária ou definitiva no pós-Brexit. No entanto, de acordo com as regras, os imigrantes não podem passar um período superior a seis meses fora do Reino Unido.

Porém, em razão da instabilidade que a pandemia trouxe, Beatriz não sabe se o retorno será viável. “Não sei se será possível, principalmente pelo fato de ter que pagar £1.750 pelo hotel no período da quarentena”, frisa. Em 15 de fevereiro deste ano, a Inglaterra adotou um sistema de confinamento em hotéis para cidadãos britânicos e irlandeses e residentes que chegam ao território vindos de países de alto risco de contaminação pela Covid-19, como no momento é o caso do Brasil.

Aluguéis em queda trazem mudanças ao cenário imobiliário

A queda populacional do Reino Unido não mudou somente trajetórias e sonhos, agora divididos por fronteiras, mas causou danos severos à economia com reflexos visíveis para quem também permanece no território. E um dos grandes impactos diz respeito ao custo de moradia.

Londres é a capital com aluguel mais caro da Europa e possui alguns dos quartos mais caros do mundo. No entanto, com a saída dos estrangeiros e o enfraquecimento da economia, muitos proprietários de casas e agências imobiliárias perderam os inquilinos e, com isso, tiveram que baixar o preço dos aluguéis como estratégia para atrair quem permaneceu no país.

Há 34 anos em Londres, 18 deles atuando como empresário no ramo imobiliário, o brasileiro Dirceu Pozzebon, de 57 anos, teve que reduzir o preço dos quartos que aluga na capital inglesa entre 12% a 20%. Mesmo assim, principalmente no período de abril a maio do ano passado, ele teve uma perda de 47% no número de inquilinos. “A maioria dos imigrantes foi embora e os britânicos saíram de Londres”, explica.

A escassez de clientes também gerou um novo perfil de demanda, segundo o empresário, que atua na capital inglesa à frente da CasaLondres. “Agora as pessoas querem quartos com melhor qualidade e mais baratos, é isso o que está acontecendo”, resume Pozzebon.

Apesar da queda no início da pandemia, o empresário afirma que já conseguiu recuperar a perda de locatários reduzindo o preço dos aluguéis. Além disso, em muitos casos, foi necessário ser flexível e entender a nova realidade de antigos inquilinos que enfrentam situação de vulnerabilidade durante a pandemia.

Dirceu Pozzebon enfrentou mudanças severas no setor imobiliário. (Foto: Arquivo pessoal)

No entanto, o brasileiro reconhece que essa não é a situação de outros profissionais do setor. “A realidade é muito diferente. Tenho muitos amigos no ramo que ainda não conseguiram se recuperar e estão com muitos quartos e casas vazias”, afirma Pozzebon.

A saída dos britânicos da Capital, grupo que representa grande parte dos inquilinos de Pozzebon, também pode influenciar para o aumento dos valores dos aluguéis em outras regiões do país e mudar o cenário para os que atuam na Capital.

Conforme pesquisa realizada pelo SpareRoom, site líder do Reino Unido para aluguel de flats e casas compartilhadas, a mudança de prioridades por parte dos locatários se confirma, sendo que agora eles tendem a investir em imóveis com mais espaço e dar preferência a cidades mais tranquilas. Metade dos locatários consultados na pesquisa, durante a pandemia, disse que pretende deixar a capital inglesa por completo, o que pode resultar em um êxodo projetado de 13% de locatários de Londres.

Suporte econômico

Pensando nos impactos da pandemia, o governo britânico passou a oferecer suporte para empresários que atuam em diferente setores, como no ramo imobiliário, e que foram atingidos pela crise do coronavírus. Os benefícios foram sendo anunciados no decorrer do último ano e, muitos deles, acabaram sendo estendidos ou substituídos por novos modelos conforme as necessidades da população.

O Bounce Back Loan Scheme, por exemplo, foi introduzido para ajudar pequenas e médias empresas que perderam receita na pandemia oferecendo um suporte de até £50 mil. Também para aliviar a perda de renda, alguns países, assim como a Inglaterra, introduziram um congelamento de prestações, um tipo de férias hipotecárias, para proprietários que compraram imóveis para alugar no Reino Unido.

As medidas contemplaram ainda trabalhadores autônomos da nação. O governo chegou a cobrir 80% dos ganhos mensais desse grupo, com um limite de até £2,5 mil, para aqueles com receita de até £50 mil.

Futuro ainda é marcado por incertezas

O cenário atual do Reino Unido, modificado especialmente pelos impactos trazidos pela Covid-19, era difícil de ser imaginado há alguns anos. E, sem uma solução final à vista para o encerramento da pandemia, a incerteza ainda paira no que diz respeito às projeções para o futuro. A previsão do governo britânico, através do Escritório de Responsabilidade Orçamentária (OBR, em inglês), é de que em cinco anos, devido ao coronavírus, a economia do Reino Unido seja 3% menor do que seria.

Como medida mais recente, o Governo estendeu os benefícios financeiros para trabalhadores e empresários até o mês de setembro. Além disso, a Inglaterra  iniciou um processo de flexibilização das restrições com previsão final de reabertura para o dia 21 de junho.

Entretanto, o choque econômico dramático enfrentado durante o período de pandemia e as novas regras trazidas pelo Brexit, quando o Reino Unido deixou a União Europeia, geram muitas dúvidas sobre os próximos passos a serem seguidos. Ainda é difícil haver perspectivas concretas seja para quem quer morar e estudar no Reino Unido ou para quem quer fazer do território um espaço de prosperidade para os negócios.

Para acessar as quatro primeiras reportagens da série especial “Pandemia: Ano 1” clique aqui.

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