Turismo em Portugal: longas jornadas e baixos salários afastam mão de obra

Governo estima que faltam 50 mil profissionais para atuar em restaurantes, bares, cafés e hotéis do país. Foto: Canva


A rotina da brasileira Emilly Aguiar, de 22 anos, começava cedo. Funcionária de um restaurante em Portimão, no Algarve, por dois anos, a imigrante chegava na cozinha antes das 9h. Entre as certezas, no entanto, estavam somente o horário de entrada e que passaria muitas horas em pé. Já o momento de voltar para casa, sempre foi marcado pela dúvida: “Nunca parava às 15h nem nunca saía às 22h. Muitas vezes chegava antes das 8h e saía meia noite”, conta a mato-grossense ao Agora Europa.

Emilly trabalhava no sistema chamado “horário repartido”, o mais comum no setor de restaurantes em Portugal. No caso da brasileira, os turnos eram das 9h às 15h e das 18h às 22h, com apenas uma folga por semana, sempre na terça-feira. As horas de pausa entre os dois turnos, no entanto, nem sempre eram possíveis devido ao baixo número de profissionais na equipe. 

Esse foi um dos principais motivos que levaram a brasileira a parar de trabalhar na área de hospitalidade, chamada de restauração em Portugal, que integra funções no setor turístico. O governo estima que, atualmente, faltam 50 mil profissionais para atuar em cafés, bares, restaurantes e hotéis. Para combater a crise na mão de obra, o plano é atrair imigrantes, com a aprovação de um novo visto que deverá entrar em vigor em breve.

Os motivos para a falta de profissionais

A medida é vista pelo Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Sul, como uma alternativa para garantir a manutenção do setor. No entanto, o presidente da entidade, Luís Trindade, avalia que são necessárias mudanças mais profundas: “Precisamos de trabalhadores qualificados e que recebam bons salários, porque um trabalhador não consegue sobreviver com apenas um emprego”, aponta.

Ter apenas uma folga semanal, trabalhar por turnos superiores a doze horas em pé, o não pagamento de horas extras e os baixos salários são apontados por trabalhadores e entidades como alguns dos fatores que levam as pessoas a evitarem o setor: “O trabalhador entra de manhã e vai embora de madrugada, seis dias por semana. Nunca tem sábado e domingo com folga. (…) Os valores [de salário] são miseráveis. Recebe-se, sendo muito otimista, três euros a hora”, argumenta o dirigente sindical em entrevista ao Agora Europa.

Esses motivos levaram o mineiro Wesley Raposo, que se mudou para Portugal em setembro de 2021, a trabalhar em um restaurante somente por um mês. O brasileiro, que saiu do Brasil com objetivo de ter mais qualidade de vida, o que não ocorreu:

“Eu não tinha tempo pra passar com a família. (…) Nunca saía nessas horas e nunca recebi hora extra. O salário no final do mês era de 610 euros com os descontos. Com o valor do aluguel, não dá pra viver”, relata o brasileiro, que vive em Braga, no norte do país. Hoje, Wesley atua em uma fábrica, com folgas aos finais de semana.

“Nunca vi tanta dificuldade para contratar”

Placa em um restaurante no maior centro comercial de Portugal, localizado em Lisboa. Foto: Amanda Lima

No maior centro comercial do país, diversas são as placas na praça de alimentação com a frase “empregado(a) precisa-se”. Patrícia Lopes, gerente de um restaurante que faz parte de um grupo com diversos estabelecimentos, diz que nunca viu tamanha dificuldade de contratação:

“Eu acho que a pandemia mudou a mentalidade das pessoas, que viram que podem ter um horário normal, final de semana, feriados, tempo com a família”, contextualiza a profissional, que tem 24 anos de experiência no setor. Nos centros comerciais, o horário de funcionamento é das 10h até a meia-noite, sete dias por semana. Quem entra na abertura precisa chegar antes e quem termina o turno da noite é responsável pela limpeza após o fechamento.

Patrícia também vê os horários, apenas uma folga semanal e os salários baixos como barreiras para contratar: “Vejo dificuldade especialmente para as mulheres e mães, que não conseguem conciliar o cuidado com a família”, ressalta a gerente. A profissional complementa que estudantes e “mulheres solteiras” costumam aceitar as especificidades do trabalho.

A rede em que Patrícia trabalha emprega imigrantes, mas somente com Autorização de Residência (AR): “Se os documentos saíssem mais rápido, teríamos, sobretudo brasileiros, para preencher as vagas. O novo visto pode ajudar muito”, argumenta a gerente. Através da Manifestação de Interesse (MI), a maneira mais utilizada para imigração em Portugal, o tempo médio para conclusão de todo o processo é de dois anos.

Com isso, mesmo quem quer trabalhar no setor, nem sempre consegue vaga. É o caso da brasileira Jeni Souza, que se mudou para o país luso há menos de um mês: “Eu tenho experiência na área e não contratam. Não respondem os contatos e pedem Autorização de Residência. Está um caos”, desabafa a jovem de 24 anos.

Jeni escolheu a cidade de Coimbra, na região central do país, por ter um custo de vida mais baixo, mas se deparou com uma realidade diferente da que via nas redes sociais: “Pago 470 euros um TI (kitnete), o fogão é praticamente em cima da cama e tive que pagar três aluguéis adiantados”, contextualiza a imigrante em busca de emprego.

Alternativa para quem não possui documentos

Já os locais que não exigem documentação, costumam ser a oportunidade que muitos imigrantes encontram ao ingressar no país. É comum ver, nos restaurantes, bares e cafés do país, imigrantes recém-chegados atuando, principalmente brasileiros, a maior comunidade estrangeira do país.

Em um estudo realizado na Universidade do Porto, intitulado “Como é que os brasileiros se sentem a trabalhar na restauração em Portugal”, 14 entrevistados da dissertação de mestrado afirmaram não terem escolhido a área por preferência, mas por ter sido a única que conseguiram vagas sendo imigrantes e ainda em processo de obter a Autorização de Residência. Entre as pessoas ouvidas estão profissionais da área da saúde, educação física e letras, por exemplo.

“Foi o setor que dá emprego para os imigrantes, é onde abre as portas, acho que tem facilidade para o setor poder contratar mão de obra. Não me sinto realizada, porque não é a minha área, trabalho muito o meu psicológico para saber que o eu faço é por um período”, destaca uma das profissionais ouvidas na pesquisa. Além disso, todos os entrevistados relatam que a carga horária é o principal desafio no setor.

O que diz a principal associação do setor

A Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), principal entidade que representa os empresários do setor, reconhece os problemas citados pelos trabalhadores e o sindicato. Segundo a entidade, “as especificidades de trabalho intrínsecas ao setor da restauração e similares, como os horários de funcionamento repartidos entre almoço e jantar, o trabalho à noite e aos fins-de-semana” estão entre as barreiras para a contratação de profissionais.

No entanto, acrescenta outros fatores, como a pandemia de Covid-19, que levou profissionais para outras áreas: “Durante dois anos houve inúmeras restrições à atividade, com dois períodos de encerramento obrigatório, criando incertezas quanto à estabilidade do emprego”, apontou a associação em resposta ao Agora Europa.

Questionada sobre a solução para a falta de mão de obra, a AHRESP não vê uma saída única, mas a necessidade de “agir em várias frentes”. A entidade enxerga na imigração uma das soluções do problema, mas chama atenção para as questões trabalhistas e de impostos: “Passa pela criação de um ambiente mais favorável ao funcionamento das empresas, pela redução dos encargos fiscais, nomeadamente os diretamente relacionados com o trabalho”, pontua. 

Para a entidade, é necessário ter mais lucro e redução da carga fiscal para oferecer maiores salários: “É fundamental que as empresas tenham capacidade para gerar riqueza, para poderem oferecer melhores condições aos seus colaboradores, pois apesar da retribuição financeira não ser o único tópico a ter em conta no leque de soluções para o problema, é sem dúvida um ponto incontornável”, complementa a associação. O salário mínimo bruto em Portugal é de 705 euros, um dos mais baixos da Europa Ocidental.

Sem respostas

O Agora Europa entrou em contato com a assessoria da ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes, que também é responsável pela Secretaria das Migrações. A assessoria destacou que a ministra só estará disponível para conversar com a nossa equipe no final de agosto. 

A Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) é o órgão do governo responsável por fiscalizar os locais de trabalho em Portugal. O Agora Europa enviou questionamento sobre as fiscalizações no setor devido às informações de trabalhadores sobre as jornadas de trabalho, mas não obteve retorno.  O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), que realiza ações de fiscalização das condições de trabalho dos imigrantes, também não respondeu à reportagem.

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