Morte de brasileira trans em Portugal completa um ano sem solução

Angelita tinha 32 anos quando foi encontrada morta no Porto, em Portugal – Foto: Instagram / Arquivo Pessoal


“Não tenho medo de você”. Essas foram algumas das últimas palavras da brasileira e trans Angelita Seixas Alves Correia para os mais de 28 mil seguidores em uma curta transmissão ao vivo (live) no Instagram. Era madrugada do dia 2 de janeiro de 2021, uma noite de temperaturas perto de zero graus em Matosinhos, cidade a 11 quilômetros do Porto, no Norte de Portugal. 

Na manhã do dia 12 de janeiro do ano passado, a polícia portuguesa confirmou a localização do corpo da imigrante nas proximidades de uma encosta, na área litorânea de Matosinhos. No entanto, até hoje, tanto a família de Angelita, que vive no Brasil, quanto os amigos em Portugal ainda não sabem ao certo o que aconteceu com a brasileira, uma mulher casada de 32 anos. 

“Eu nem sei mais a quem recorrer para tentar saber de algo. Eu vivo a minha vida imaginando pistas para tentar obter um desfecho”, desabafa Bárbara Laise, de 26 anos. A jovem, sobrinha de Angelita, mora no Brasil e mantinha contato diário com a tia. 

Bárbara ligou para Angelita, por chamada de vídeo, por volta da 1h da madrugada, no horário de Portugal, do dia 2 de janeiro, minutos após a transmissão da live: “Não dava pra ter certeza se ela estava fugindo de algo ou alguém ou tendo um surto, mas pediu que eu ligasse para o meu tio [marido de Angelita] ir buscá-la”, relata Bárbara, em entrevista ao Agora Europa.

Nervosa e preocupada com a segurança da tia, a sobrinha atendeu ao pedido e entrou em contato com o companheiro de Angelita: “Ele saiu desesperado atrás dela, mas não a encontrou”, explica Bárbara, que até hoje guarda as últimas conversas trocadas com a tia. Os pertences de Angelita, com exceção dos celulares, foram encontrados na manhã seguinte na praia, em 3 de janeiro, de acordo com os familiares da imigrante.

Foram 10 dias de buscas no mar e na cidade, com divulgação das fotos nas redes sociais e em cartazes, até o corpo ser encontrado por um surfista na praia: “Não é comum que as pessoas entrem na água à noite em pleno mês de janeiro, o mar aqui é muito revolto e estava frio”, assegura Ricardo (nome fictício), que conhece a região e que possui experiência técnica na área. A fonte, no entanto, prefere não se identificar.

A costa de Matosinhos, que tem cerca de 115 mil metros quadrados, costuma ser pouco frequentada à noite no inverno, segundo moradores e trabalhadores das redondezas onde a morte ocorreu. A região onde o corpo foi encontrado fica perto de uma área rochosa e do Porto de Leixões, uma construção cercada por muros e com segurança 24 horas.

Corpo de Angelita foi encontrado por um surfista, no final da tarde de 11 de janeiro de 2021. Foto: Amanda Lima / Agora Europa

A vida de Angelita em Portugal

A praia onde o corpo da imigrante foi encontrado é a mesma onde, cerca de dois anos antes, Angelita fez uma sessão de fotos no dia em que se casou. Com um vestido de noiva rosa, a brasileira posou com o marido, um português que conheceu na cidade do Porto ainda em 2017, meses depois de chegar para morar no país. Procurado pela nossa equipe, o marido preferiu não conceder entrevista sobre o caso.

Assim como muitos imigrantes, Angelita cruzou o Atlântico em busca de melhores oportunidades. A vida da brasileira, natural do Estado de Goiás, era contada no Instagram, que possui mais de 800 fotos publicadas desde 2016. As imagens registram passeios com o marido, treinos diários na academia, aulas de dança e uma dieta restrita para manter o corpo.

Angelita fazia treinos diários e havia acabado de concluir o curso de Personal Trainer. Foto: Instagram

Pouco antes de morrer, a imigrante havia concluído dois cursos: o de Personal Trainer e o de Fitdance, descritos por amigas de Angelita como duas paixões importantes na vida da brasileira: “Eu nunca vou esquecer a primeira vez que a vi em uma aula de dança; um mulherão de cabelo azul que dançava muito”, recorda a carioca Lais Cobra, instrutora de Fitdance e uma das melhores amigas de Angelita.

“Ela era uma pessoa bondosa, ajudava todo mundo, sempre disposta e alegre”, destaca Laís, entrevistada pelo Agora Europa no parque onde costumava dançar com Angelita, na cidade do Porto. “Começamos a dançar aqui várias vezes por semana. Logo, a Angelita chamava as pessoas ao redor. Era uma pessoa com uma energia contagiante”, destaca a amiga, olhando para o local das aulas de dança realizadas ao ar livre por causa da pandemia de Covid-19. 

“Aqui mesmo, ela me dizia que ia dar aula pra mais de mil pessoas ao mesmo tempo, que ia ficar famosa. Era uma pessoa com muitos sonhos e vontade de viver”, relembra a instrutora de dança, que admirava o empenho de Angelita e era parceira de treinos. “Ela sabia tudo sobre os exercícios, os nomes dos músculos, era muito dedicada também no curso de personal”, ressalta Laís. No Instagram, as postagens na academia eram quase diárias.

Lais costumava dançar com Angelita em uma praça da cidade do Porto. Foto: Amanda Lima / Agora Europa

“A Angelita faz muita falta aqui”

Na academia em que Angelita mais frequentava, a imigrante é descrita como uma pessoa muito respeitosa, que naturalmente fazia amizades com todos, além de ser muito dedicada aos treinos e de ter objetivos profissionais: “Eu arrepio-me em lembrar da Angelita, ela é uma pessoa inesquecível e faz muita falta aqui”, salienta uma das profissionais do local.

“Eu chorei quando ela morreu. Na passagem de ano agora, eu lembrei dela de novo e fiquei pensando: ‘Por que não sabemos o que de fato aconteceu? Por ela ser brasileira? Por ser trans?’”, indaga a profissional, que conversou com Angelita na academia no Natal de 2020, poucos dias antes do desaparecimento.

“Ela andava um pouco mais triste porque tinha concluído o curso de Personal Trainer, mas ainda não tinha conseguido o estágio, mas ela tinha muitos sonhos e vontade de viver”, explica a jovem. O estágio é obrigatório para que a atividade profissional possa ser exercida no país. 

O tema da dificuldade para ser aceita em um estágio também foi comentado por Laís: “Ela estava muito diferente nas últimas semanas. Até o dançar dela estava diferente, principalmente porque precisava do estágio para conseguir trabalhar depois, mas não estava conseguindo”, recorda a amiga.

A instrutora lembra que Angelita comentou que achava que o motivo de não conseguir a oportunidade era por ser transexual e imigrante: “Ela me dizia que sentia o preconceito das pessoas simplesmente por ser quem era: uma mulher que chamava muito a atenção de todos”, pontua Lais.

Um ano de mistério

Passado um ano do caso, muitos se questionam como a morte da brasileira aconteceu. Todas as amigas e conhecidas de Angelita ouvidas pelo Agora Europa concordam que Angelita não tinha um perfil suicida: “Nunca passou pela minha cabeça que tinha se suicidado. Ela tinha gosto pela vida”, conta Thuany Schlichting, que foi professora de dança da brasileira, ajudou nas buscas e esteve em contato com a família da imigrante. 

Colegas de dança realizaram uma homenagem para Angelita. Foto: Thuany Schlichting / Arquivo Pessoal

Depois da descoberta do corpo, Thuany realizou, juntamente com outras duas amigas, uma homenagem para a ex-aluna e colega com balões e flores brancas no mar ao pôr do sol: “Acho que ali caiu a ficha que ela se foi”, ressalta a instrutora, que define como “um descaso” o fato de até hoje não existir a divulgação oficial do que motivou a morte de Angelita.

Bárbara Laise, sobrinha de Angelita, que falou com a tia minutos antes do celular ser desligado, não foi interrogada formalmente pela polícia. No entanto, ela assegura que familiares informaram as autoridades sobre as possíveis ameaças que Angelita relatou na live e para a sobrinha, na chamada telefônica, antes de desaparecer.

Faltam dados oficiais sobre crimes contra a comunidade LGBTI+

O mais recente Relatório Anual de Segurança Interna de Portugal, divulgado no último mês de dezembro, assim como os levantamentos anteriores, não categoriza os crimes relacionados com homofobia no país. Em novembro de 2021, Dia da Memória Trans, o Governo de Portugal prometeu capacitar profissionais de Segurança Pública para lidar com casos relacionados à comunidade LGTBI+. Segundo o comunicado, um dos objetivos é “a prevenção da violência homofóbica e transfóbica e também para uma melhoria na atuação e investigação em situações de crime” no país.

A brasileira Débora Ribeiro, diretora da Associação Queer Tropical, formada para apoiar a comunidade estrangeira LGBTI+ em Portugal, afirma receber relatos constantes sobre crimes contra imigrantes. Segundo ela, há uma “negligência” sobre como os casos são tratados no país: “Depois que acaba o boom do momento, não se sabe mais nada, isso não aconteceu só com a Angelita, mas em casos de agressão, por exemplo, que ninguém fica sabendo o que aconteceu”, exemplifica a ativista.

Segundo Filipe Gaspar, a cidade do Porto, onde Angelita morava,  é conhecida por posições conservadoras. O ativista é um dos organizadores da Marcha do Orgulho LGBTI+ na cidade, que é a segunda maior cidade de Portugal: “O Porto é uma cidade burguesa e conservadora e nunca teve, por exemplo, uma bandeira arco-íris hasteada, como em Lisboa e outras cidades, nem mesmo um plano de ações específicas para a comunidade [LGBTI+]”, exemplifica Filipe.

O Porto também é conhecido por ter sido a cidade que eterniza a memória de uma outra brasileira trans: Gisberta Salce Júnior. A imigrante foi torturada por dias e assassinada em fevereiro de 2006 por um grupo de adolescentes: “O trágico caso da Gisberta, lembrado até hoje, motivou a realização da primeira marcha no Porto, que ocorre todos os anos desde 2006”, conta Gaspar.

Filipe Gaspar diz que a comunidade trans enfrenta mais dificuldade no acesso ao emprego. Foto: Amanda Lima / Agora Europa

O ativista, que há anos atua pelas causas LGBTI+ na cidade, diz não ter dúvida que as pessoas trans possuem mais dificuldade no acesso ao mercado de trabalho em Portugal. Filipe afirma que o preconceito é ainda maior para pessoas que se assumem como trans para a comunidade em que estão inseridas.

A afirmação do ativista é compartilhada por Débora Ribeiro, que mora há 12 anos em território português: “Ser trans e imigrante em Portugal é certamente um fator de exclusão do mercado de trabalho”, explica a diretora da associação.

A brasileira entende que, além da dificuldade em conseguir empregos que exigem qualificação, a comunidade imigrante e LGBTI+ passa por dificuldades para acesso à outros serviços, principalmente na área da saúde: “Vivemos um acúmulo de opressões causadas pela xenofobia, pelo racismo e o preconceito contra as pessoas LGBTI+ em várias áreas, especialmente nos serviços de saúde”, elenca Débora.

A ativista considera que o apoio psicológico é essencial para as pessoas imigrantes e da comunidade, principalmente durante a pandemia de Covid-19: “Além do preconceito existente e da dificuldade em conseguir um apoio para a saúde mental, muitos têm receio em procurar ajuda por questões de legalização”, cita a imigrante.

Brasileiros são os estrangeiros que mais buscam apoio no “Centro Gis”

Centro leva o nome da brasileira trans assassinada no Porto em 2006. Foto: Amanda Lima / Agora Europa

A cidade do Porto ainda revive a memória do caso Gisberta, considerado por ativistas como um marco na discussão sobre transexualidade no país. No início de 2017, mais de 10 anos após o crime, a Associação Plano I conseguiu financiamento junto ao governo para criar um centro de respostas à comunidade LGBTI+. 

O local, chamado de “Centro Gis”, teve o nome escolhido em homenagem à vítima brasileira. Uma pintura da imigrante, realizada por uma das pessoas atendidas no local, além de uma escultura, compõem o hall de entrada do centro, localizado em Matosinhos.

Segundo Tiago Castro, psicólogo que trabalha no local, já foram realizados, desde o início das atividades, 6621 atendimentos até o final de dezembro de 2021. Os portugueses correspondem à grande maioria dos que buscam ajuda, totalizando 758 pessoas. Os brasileiros, por outro lado, correspondem à maior comunidade estrangeira a procurar atendimento no centro: 56 ao todo. O número é mais do que o dobro quando comparado a todas as demais nacionalidades que, juntas, correspondem a 27 consultas no local.

De acordo com o profissional, são muitos os motivos pelos quais as pessoas procuram apoio no centro: “Desde casos de violência doméstica, que ocorrem dentro da família, apoio psicológico e atendimento médico”, elenca o psicólogo, que trabalha no local desde 2020. 

Com a pandemia, Tiago observou um aumento na procura pelos serviços, especialmente na área psicológica: “Se tivéssemos mais um centro, pessoas para atender não faltariam, com toda a certeza”, afirma o especialista. Segundo o profissional, todas as pessoas LGBTI+ podem buscar o local, independentemente do status de legalização no país. 

Sem respostas

O Agora Europa realizou diversos contatos com a Polícia Judiciária (PJ) nos últimos meses, mas não obteve resposta. Bárbara afirma que o último contato com as autoridades foi realizado em agosto do ano passado, quando as cinzas do corpo de Angelita foram enviadas ao Brasil. 

De acordo com a sobrinha, a polícia informou que a escolha da cremação estava relacionada com a pandemia de Covid-19. A última informação repassada à família era de que o caso permanecia sob investigação e que “todas as pessoas envolvidas foram interrogadas.”

Já o Ministério Público informou à reportagem que o processo foi arquivado. De acordo com Bárbara, a família não foi informada sobre o arquivamento da investigação. O Agora Europa solicitou acesso ao documento, mas ainda não recebeu resposta sobre o pedido. 

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