Pandemia agrava violência doméstica na Europa e deixa mulheres desprotegidas

Na Irlanda, uma média de sete mulheres por dia tiveram pedidos de abrigo negados por falta de espaço nas casas de acolhimento. (Foto: Saneej Kallingal)

Por Amanda Lima, Daiane Vivatti, Débora Harbaek, Jéssica Sbardelotto, Jézica Bruno Thaís Baldasso.

Na primeira reportagem da série “Territórios de dor: brasileiras enfrentam violência doméstica na Europa”, as jornalistas do Agora Europa apresentam os desafios das mulheres vítimas de violência doméstica na Europa durante a pandemia de Covid-19.

Um ano. Duas pandemias.
O coronavírus mudou a vida de milhares de pessoas com a realidade do confinamento. Os encontros com os amigos, a socialização na rua e a rotina de trabalho foram ficando cada vez mais distantes. A casa, espaço de segurança e conforto, também se tornou escritório, sala de aula, oficina. E um lugar de medo. Uma realidade que já assombrava mulheres em todo o mundo se intensificou com a pandemia: a violência doméstica.

De acordo com o Fundo de População das Nações Unidas, a estimativa é de que a cada três meses de lockdown, mais de 15 milhões de mulheres sejam afetadas pela violência doméstica ao redor do mundo. Em 2020, o Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, celebrado nesta quarta-feira (25), traz um chamado urgente para ações que visem financiar, responder, prevenir e coletar dados para lidar com a violência de gênero no contexto do Covid-19.

Na Europa, uma em cada três mulheres já foi vítima de violência física, psicológica e/ou sexual. A Comissão Europeia destaca que o coronavírus mostrou mais uma vez que para muitas mulheres nem mesmo a sua casa é um lugar seguro. O Instituto Europeu para a Igualdade de Gênero lançou um questionamento: “Como enfrentamos duas pandemias ao mesmo tempo?”

Na Irlanda, entre março e agosto de 2020, a média de ligações para linhas de auxílio no país teve aumento de 25% em comparação a 2018. Conforme um estudo da organização Safe Ireland, ONG que atua no apoio a mulheres vítimas de violência, um total de 33.941 pedidos de socorro foram realizados por telefone no período. Entre as vítimas que buscaram os serviços de ajuda, 3.450 mulheres o fizeram pela primeira vez.

A investigadora especializada em violência contra a mulher Lórian Leal avalia que o aumento nos casos de violência durante a pandemia se deve, entre outros fatores, principalmente ao novo cenário de insegurança e instabilidade que o confinamento provoca no agressor. Ele, por sua vez, acaba direcionando o seu descontrole em quem está mais próximo, a mulher.

“A gente sabe que o agressor é uma pessoa muito insegura”, diz, explicando que fatores específicos como a permanência em casa por mais tempo com os filhos, o que pode gerar mais incômodo, e a falta do entretenimento, que geralmente é usada como válvula de escape para o descontrole, são agravantes.

“A vítima serve como saco de pancada das frustrações que o agressor está enfrentando, sentindo, essas novas sensações que ele está experimentando. Então o que ele faz? Ele desconta de todas as formas possíveis e imagináveis, com agressão física, verbal, emocional, psicológica e mais ainda agressão de pegar no ponto financeiro”, explica Lórian.

A pandemia e a elevação da busca por auxílio gerou desafios para os sistemas de apoio e para vítimas, já que medidas de segurança contra o Covid-19 limitaram ainda mais as vagas em abrigos. Durante o período de confinamento na Irlanda, uma média de 191 mulheres e 288 crianças estavam em moradias de proteção a vítimas mensalmente, enquanto mais de 1,3 mil, ou uma média de sete por dia, tiveram pedidos negados por falta de espaço nas casas de acolhimento.

“Não acho que o sistema esteja pronto para apoiar mulheres migrantes”, diz sobrevivente

Depois de viver por anos em um ciclo de violência, com um filho recém nascido nos braços, Rebecca* conseguiu deixar o marido e sair de casa. As agressões físicas começaram logo após o casamento, quando o homem que antes se demonstrava carinhoso e controlador, passou a exibir seu lado violento. A brasileira já havia feito tentativas de se livrar dos abusos, mas foi só em fevereiro deste ano que conseguiu auxílio e foi para um abrigo.

Rebecca não imaginava, no entanto, que com o início do lockdown a situação se tornaria ainda mais difícil. As medidas restritivas impostas devido à pandemia afetaram diretamente a vida de mulheres que estão nestes locais seguros. No caso da brasileira, inúmeras mudanças de endereço foram necessárias desde então.

“Atualmente, estou morando com meu filho pequeno, entrando e saindo de diferentes abrigos. Deixei uma casa de abusos e humilhações, mas não encontrei paz. Não acho que o sistema esteja pronto para apoiar mulheres migrantes que sobrevivem à violência”, desabafa Rebecca.

No momento, a brasileira aguarda a possibilidade de ir para um lugar definitivo, onde possa se estabelecer, conseguir um emprego e cuidar tranquilamente do bebê. Enquanto espera, Rebecca conta com o auxílio de entidades que ajudam mulheres no país.

No mês de abril, o Departamento de Justiça irlandês lançou a campanha Still Here (Ainda Aqui) com o objetivo de demonstrar às mulheres vítimas de violência que elas são prioridade e que os serviços de atendimento “ainda estão aqui”. Também foi destinado  recurso extra de 160 mil euros para auxiliar a comunidade e grupos voluntários. Na época, a organização estimou a necessidade de um financiamento adicional de 1,6 milhão de euros para atender às demandas durante a pandemia.

Em Portugal, o governo criou 100 novas vagas emergenciais em abrigos temporários, que seguem acolhendo vítimas que precisam abandonar seus lares. Nos três primeiros meses da pandemia, 499 mulheres deixaram suas casas por razões de segurança, bem como 328 crianças e adolescentes. A Polícia de Segurança Pública (PSP) estima que 8,1 mil crianças em Portugal estão ou estiveram em situação de risco por conta da violência doméstica.

Mesmo com deficiências no atendimento, os dois países tiveram as iniciativas destacadas pelo Instituto Europeu para a Igualdade de Gênero e pela Organização das Nações Unidas (ONU). As medidas foram reconhecidas como importantes ferramentas no auxílio das mulheres vítimas de violência.

Ajuda a mulheres

A Espanha também ganhou notoriedade por focar na proteção das mulheres em mais da metade das iniciativas adotadas durante a pandemia de Covid-19. Das ações implementadas pelo governo espanhol, 10 estão ligadas à violência contra mulheres e meninas, cinco abordam o trabalho de cuidado não remunerado e uma visa a segurança econômica das mulheres.

Atualmente, a Lei de Violência de Gênero na Espanha é vista como uma das mais progressistas na Europa. Além disso, o país conta com orçamento próprio para a área, possui um ministério especializado no assunto, oferece atendimento 24 horas e tem uma rede integrada de atendimento às vítimas. Mas todas as medidas não impedem o país de apresentar dados elevados de agressões e feminicídios.

De janeiro a setembro de 2020, o telefone 016, que presta atendimento gratuito às vítimas recebeu 63.437 denúncias, conforme dados da Delegação de Governo contra a Violência de Gênero. Somente neste ano, 41 mulheres foram assassinadas, sendo  três menores de idade. Segundo dados da última pesquisa desenvolvida pelo Ministério da Igualdade, em 2019, mais de quatro milhões de mulheres que residem na Espanha sofreram algum tipo de violência.

Beatriz Durán, psicóloga especialista em violência de gênero e assédio cibernético, acredita que a chave para mudar esse ciclo de violência na Espanha está em uma educação mais avançada. “Até hoje educação emocional e sexual não estão no currículo escolar obrigatório. Professores e educadores não são preparados para falar sobre o tema, não são formados em violência de gênero. Essa deficiência reflete na dificuldade de enfrentamento e acompanhamento dos casos de violência em nosso país”, diz a especialista.

Para Beatriz, a maioria dos casos de violência tem origem na infância, na educação patriarcal e machista, que esquece de ensinar que todos devem ser respeitados e que não existe um gênero que manda e outro que obedece. “Não somos ensinados a respeitar nossos sentimentos, apenas a controlá-los. Isso é manipulação”, destaca. A profissional enfatiza ainda que o atendimento público a essas mulheres é limitado, tendo em vista que, muitas vezes, depois de ter o caso julgado, elas voltam a estar sozinhas e desamparadas emocionalmente.

Na próxima reportagem da série “Territórios de dor: brasileiras enfrentam violência doméstica na Europa”, você vai saber como a violência contra a mulher afeta imigrantes no continente. Estar longe de casa é uma barreira ainda maior para buscar ajuda: “Se eu não estivesse sozinha, se eu tivesse tido um apoio, não teria passado por tudo que passei”.

*O nome utilizado na reportagem é fictício para preservar a identidade da vítima, que concedeu seu relato para a campanha We are here too (Nós estamos aqui também).

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