Brasileiras encontram suporte de voluntárias na luta contra violência doméstica

Mulheres imigrantes contam com rede de apoio voluntária na Europa. (Foto: Freepik)

Por Amanda LimaDaiane VivattiDébora HarbaekJéssica Sbardelotto, Jézica Bruno Thaís Baldasso.

Na terceira reportagem da série “Territórios de dor: brasileiras enfrentam violência doméstica na Europa”, você vai conhecer alternativas para imigrantes brasileiras que precisam de auxílio. A ajuda vem principalmente de mulheres brasileiras voluntárias, unidas não só pela nacionalidade, mas por uma causa comum: sobreviver longe de casa.

Uma casa isolada, distante de tudo, afastada de todos. A residência espelhava a condição da mulher, vítima de um relacionamento abusivo, que dentro dela vivia. Solidão, medo e descrença na vida foram sentimentos que fizeram parte da realidade diária de Lórian durante longos anos de abusos e violência.

Nos primeiros encontros, em maio de 2014, a sensação da jovem brasileira era de que ela havia encontrado um príncipe, alma gêmea, um homem que demonstrava cuidado e que fazia o possível para estar com ela, inclusive fazendo o possível para que eles morassem juntos. Porém, depois de quatro meses, o excesso de zelo começou a mostrar outras faces: o agressor começou a controlar a rotina, as decisões e promover o afastamento de outras pessoas próximas. 

Os sinais de um relacionamento abusivo, no entanto, nem sempre são percebidos no início pelas vítimas. A violência psicológica acontece pouco a pouco, sem que muitas mulheres consigam entendê-la. Quando notam, já estão em uma espiral de abuso, que se agrava dia após dia, e se transforma em violência física, sexual. Muitas vezes chega ao feminicídio.

As dificuldades são inúmeras, especialmente para mulheres estrangeiras, que, por muitas vezes, preferem manter o silêncio a lidar com o julgamento. Ou muitas vezes são levadas a acreditar que realmente eram responsáveis pelos ataques de fúria. “Eu me culpava muito, eu achava que tinha passado por isso [pelas agressões] por ter levado ele a tomar aquela atitude”, relata Lórian Leal.

A brasileira, que hoje atua como investigadora na Irlanda, conseguiu sair do ciclo de violência depois de cinco anos de relacionamento, mas esse não foi um caminho fácil. Lórian tentou terminar o noivado algumas vezes, mas enganada por promessas de mudança, acabou cedendo até ser levada para morar no interior da Irlanda, em um lugar sem vizinhos por perto.

Nesse local, as agressões se intensificaram e ela mesma achava que a única saída seria se deixasse de viver. Foi quando uma publicação de uma psicóloga nas redes sociais, com quem Lorián começou tratamento, a fez acreditar que seria possível sobreviver. Foram cinco meses de preparação para conseguir finalmente sair de casa. 

A liberdade veio em fevereiro de 2019, com um mandado de segurança válido por cinco anos, impedindo o agressor de se aproximar ou tentar qualquer tipo de contato, mesmo por email ou telefone, sob o risco de ser preso. “No dia da audiência, eu só pedia uma coisa dentro de mim, que eu nunca mais o encontrasse ”, relembra.

Mulheres que se apoiam

O enfrentamento da etapa jurídica, os cuidados com a saúde e a mudança de endereço foram momentos solitários, em que nem mesmo os amigos estavam por perto. Mas toda a dor e sofrimento de Lórian se transformaram em esperança e solidariedade. A investigadora decidiu que deveria usar sua vivência e histórico na área jurídica para auxiliar gratuitamente outras mulheres passando por situações de abuso e isso se tornou sua missão.

“No momento que eu tive o meu desfecho, que eu consegui o meu mandado de segurança, eu falei agora eu resolvi a minha vida, agora eu vou me dedicar e resolver a vida de todas as outras pessoas que precisem de mim”, explica.

Ela aponta que, entre os desafios do combate à violência contra mulheres, alguns ocupam espaço primordial, como a falta de estrutura suficiente para dar suporte gratuito às vítimas e, ainda hoje, o tabu que marca o assunto. Por isso, é fundamental que vítimas que não conseguem se livrar do ciclo de violência não sofram nenhum julgamento. Pelo contrário, que sejam encorajadas para terem certeza do que querem.

“Você sente falta da pessoa mesmo te abusando, então a mulher tem que (…) pensar nela como se ela tivesse em um grupo do AA (Alcoólicos Anônimos). A cada dia sem o abuso, sem o abusador, é um dia de vitória. Fora isso, ela tem que lembrar que ela tem direitos em questão de visto, assistência pra casa, assistência da previdência. (…) Mas ela precisa de uma rede de apoio (…), ela tem que saber que aquelas pessoas estão do começo até o fim com ela. Isso é importantíssimo pra ela”, detalha a investigadora.

So-bre-viver

Assim como Lórian, existem centenas de mulheres brasileiras voluntárias espalhadas por diversos países europeus, unidas não só pela nacionalidade, mas por uma causa comum: sobreviver longe de casa. No Reino Unido, assim como em toda a Europa, existem diversas instituições de apoio a mulheres que sofrem ou sofreram algum tipo de violência. Essas organizações atuam no sentido de cobrir a carência de informação e perspectiva que persevera entre as mulheres imigrantes, especialmente entre as que estão sendo violentadas.

É o caso do Grupo Mulheres do Brasil em Londres, que neste ano lançou a “Cartilha da Mulher Brasileira no Reino Unido”. São informações preciosas para ajudar mulheres a identificarem se são vítimas de violência e onde ou como buscar ajuda. Para Marli Pires, que faz parte do Comitê de Direitos da Mulher do grupo, as brasileiras “precisam estar atentas”, informadas sobre os seus direitos, e conhecer os caminhos possíveis para a busca de ajuda. Entender que nenhuma mulher está sozinha.

“Falta um trabalho de conscientização e um olhar mais cauteloso das instituições e do governo para essa mulher que está sofrendo violência doméstica”, diz Marli. A voluntária explica que o Reino Unido oferece, entre outras ações, um serviço de apoio dividido em quatro sessões, o que pode ser muito pouco, e abrigo a mulheres em locais seguros. Porém, a brasileira analisa que muitas vezes o tema sobre a violência e o abusador é tratado com menos sensibilidade do que se espera, o que pode ser ainda mais traumático para as vítimas e seus filhos. “Há uma desconexão entre as entidades”, ressalta.

O grupo Mulheres do Brasil também está presente na Dinamarca, país que está entre os que possuem os maiores Índices de Igualdade de Gênero no mundo. A nação foi uma das primeiras a ratificar a Convenção do Conselho da Europa sobre Prevenção e Combate à Violência contra as Mulheres e Violência Doméstica, de 2014. O documento estabelece que todas as vítimas de abuso têm direito à proteção, independentemente da residência e da origem como imigrante.

A realidade, no entanto, é de falta de dados referentes à imigrantes vítimas de violência e mobilização das mulheres em busca de mais garantias para as brasileiras. Uma das fundadoras do Grupo Mulheres do Brasil – Núcleo Copenhague, Denise Mauler, estima que mais de quatro mil brasileiras residem atualmente na Dinamarca. “Nossa comunidade é grande e queremos ter voz”, salienta. O núcleo foi formado neste ano e o objetivo é formar parcerias com instituições. “Queremos ser uma ponte de apoio entre elas e entidades (…), para trabalhar a informação, prevenção e suporte”, explica Denise.

Já na Irlanda, o Grupo Mulheres do Brasil – núcleo Dublin passou a integrar a rede de Mulheres Migrantes em um trabalho conjunto com diversas entidades para auxiliar vítimas de violência. Nessa semana, a rede lançou a campanha ‘Nós também estamos aqui’ (We are here too, em inglês), que traz histórias de luta de mulheres de diversas nacionalidades contra os mais diversos tipos de agressão. “O sistema de imigração às vezes permite a violência doméstica e mantém as mulheres presas em relacionamentos abusivos. Queremos abordar a questão da falta de atenção às mulheres imigrantes na discussão nacional e na prestação de serviços”, destaca Luz Pereira.

O que se vê é uma corrente de brasileiras que dão as mãos a outras mulheres passando por momentos de extrema dificuldade. Elas reconhecem que ainda há um longo caminho a ser percorrido para que o atendimento às vítimas de violência no território europeu seja certeiro e eficaz, mas cada etapa de luta demonstra valer a pena.

“Eu vou continuar firme no meu propósito porque se eu puder salvar a vida de uma mulher já foi o suficiente, não suficiente, mas válido eu ter passado por tudo o que eu passei”, desabafa Lórian.

Onde buscar ajuda

Veja o mapa com instituições espalhadas por diferentes países da Europa que auxiliam mulheres vítimas de violência.

 

Esta foi a terceira e última reportagem da série Territórios de dor: brasileiras enfrentam violência doméstica na Europa”, produzida pelas jornalistas do Agora Europa. Na primeira, apresentamos os desafios das mulheres vítimas de violência doméstica  durante a pandemia de Covid-19Na segunda, explicamos  como a condição de imigrante afeta as mulheres na luta contra violência doméstica.

 

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