Embaixada divulga raio-x da comunidade brasileira na Irlanda

Uma comunidade diversa, mas com um objetivo em comum: imigrar em busca do aprendizado da língua inglesa para progredir profissionalmente. Os brasileiros que atualmente vivem na Irlanda compartilham o desejo de ter melhor qualidade de vida, mas mantendo um forte vínculo com o Brasil. As constatações são resultado do Mapeamento da Comunidade Brasileira na Irlanda, divulgado nesta sexta-feira (19) pela Embaixada do Brasil em Dublin.

A pesquisa contou com a participação de 3.928 brasileiros e foi realizada entre os meses de setembro de 2023 e janeiro de 2024 pela empresa de consultoria Unleashe. A partir dos dados coletados e um comparativo com outros estudos, como o Censo da Irlanda de 2022, a estimativa é de que atualmente 58,5 mil brasileiros sejam residentes na Ilha Esmeralda, sendo 14,5 mil crianças.

Um em cada três brasileiros (65%) que responderam à pesquisa possui exclusivamente nacionalidade brasileira, e a maioria (61%), chegou à Irlanda com o visto Stamp2, que é concedido a estudantes. Mais de 60%, no entanto, modificou a permissão de residência desde a chegada ao país, seja pelo reconhecimento de uma cidadania europeia ou pela conquista de um visto de trabalho. Entre os entrevistados, 21,1% também possuem cidadania italiana, 6,1% cidadania portuguesa e 5,6% cidadania irlandesa.

A busca por mecanismos para permanecer no país é refletida no fato de mais de 60% dos brasileiros dizerem se sentir em casa na Irlanda. Além disso, 43,4% não têm intenção de voltar definitivamente ao Brasil. O ministro do Meio Ambiente, Clima e Comunicações, Eamon Ryan, participou do lançamento do mapeamento para entender melhor a situação dessa comunidade na Irlanda.

Em entrevista ao Agora Europa, Ryan destacou que a primeira prioridade é garantir que os imigrantes se sintam seguros e bem-vindos: “Temos que garantir que a comunidade brasileira aqui tenha a mesma proteção, qualidade de vida e que sejam bem tratados no local de trabalho, que possam acessar bons estudos e recursos. E precisamos garantir que eles não estejam sujeitos a intimidações ou discriminações”, pontua o ministro irlandês.

Uma comunidade com alta qualificação profissional

O mapeamento identificou que a comunidade brasileira na Irlanda é altamente qualificada, com mais de 85% dos participantes da pesquisa possuindo nível superior de ensino. Além disso, o estudo identificou que muitos brasileiros têm buscado mais qualificação após a mudança para o território irlandês, como cursos de pós-graduação e mestrados. Entre as principais áreas de formação estão o setor de Administração, Negócios e Direito.

Em contrapartida, quase metade dos imigrantes não atua em empregos correspondentes à área de formação. Entre os principais motivos levantados pela pesquisa, estão a busca por trabalhos que ofereçam melhores perspectivas de crescimento profissional e oportunidades ou oferta salarial mais atraentes. A maioria (52,5%), no entanto, relata já ter enfrentado ou presenciado discriminação no trabalho devido à falta de fluência no inglês, ou mesmo pelo status de imigrante (46,8%).

Grupos que demandam atenção

Há ainda um número elevado de brasileiros trabalhando em frigoríficos irlandeses, o que faz parte da história da imigração entre os países. A primeira grande onda migratória do Brasil para Irlanda iniciou em 1995, tendo a região de Galway como um dos principais destinos, mais precisamente a cidade de Gort, conhecida como Little Brazil, devido à vinda de profissionais da região de Goiás para trabalhar na indústria de carne. 

Atualmente, outros condados lideram na contratação em frigoríficos, estando a maior concentração em Dublin (18,8%). As conclusões do mapeamento colocam os trabalhadores em frigoríficos como um dos grupos que enfrenta situação de vulberabilidade no país.

O estudo aponta ainda que outros dois grupos demandam atenção: os estudantes portadores de Stamp2, com limite para trabalhar apenas 20 horas semanais, e os cônjuges e companheiros com Stamp3. Essa permissão de residência é concedida a parceiros de imigrantes que obtiveram o visto geral de trabalho (General Work Permit) e não estão autorizados a trabalhar no país.

Além disso, a estimativa é de que, atualmente, cerca de 3,6 mil brasileiros estejam indocumentados na Irlanda. A pesquisa indica que a maioria reside em Dublin, mas há também residentes de outras regiões como Galway, Limerick, Roscommon e Cork. Entre os problemas enfrentados por quem não possui documentos, estão as altas jornadas de trabalho e o salário abaixo do mínimo.

Brasil, meu país

Mesmo com o alto percentual de brasileiros que se sentem em casa na Irlanda, o vínculo com Brasil ainda é extremamente alto, seja no uso da língua portuguesa diariamente, na participação de alguma comunidade ou grupo brasileiro, ou ainda acompanhando conteúdos do Brasil. Os vídeos ou notícias do país de origem ainda são acompanhados por 97,4% dos imigrantes brasileiros que vivem atualmente na Ilha Esmeralda.

Além disso, mais de 80% consomem produtos alimentícios brasileiros, utilizam serviços de profissionais do Brasil, como salões de beleza, e também escolhem restaurantes ou lanchonetes com a comida da terra natal. Por outro lado, também criaram laços com a Irlanda, seja na fluência do inglês (66,9%) ou na relação próxima com colegas de trabalho irlandeses (43,4%).

“A comunidade brasileira está trazendo benefícios reais e coisas positivas para o nosso país e eu gostaria que nós aprendessemos com isso e também pudéssemos [os irlandeses] levar isso para o Brasil”, finaliza o ministro Eamon Ryan. O irlandês esteve recentemente em território brasileiro, e destacou a busca por fortalecer as relações entre os dois países.

Ryan contou que um dos motivos para a visita ao Brasil foi uma forma de demonstrar agradecimento ao brasileiro Caio Benício, que parou um ataque com arma branca contra crianças no centro de Dublin, em novembro de 2023. Benício passava pelo local de motocicleta ao trabalhar como entregador e, ao se deparar com o crime, desceu do veículo e utlizou o capacete para parar o agressor.

O ato heróico transformou Benício em um exemplo da causa imigrante na Irlanda: “é muito bacana saber que um ato de puro instinto trouxe tanto orgulho para a comunidade brasileira”, conta. O brasileiro diz que foi percebendo isso aos poucos, ao encontrar outros imigrantes nas ruas: “elas começaram a ir me falando que eram ameaçadas no trabalho, que não tinham o respeito dos colegas e, no dia seguinte [ao ataque], as pessoas passaram a respeitar mais elas”, explica Benício após conversar pessoalmente com o ministro.

O brasileiro diz ter percebido que, além de ajudar no ato na escola, também ajudou a comunidade brasileira e os imigrantes em geral, já que o país vive um cenário de aumento de movimentos xenófobos e anti-imigrante. O embaixador Marcel Biato destacou que “não há melhor antídoto à retórica de preconceito e ódio do que o exemplo vibrante da comunidade brasileira firmemente integrada na sociedade irlandesa”.

Para Biato, “o principal é mostrar que o Brasil e os brasileiros querem colaborar para que a Irlanda se desenvolva”. O embaixador destacou alguns trabalhos desenvolvidos, como a criação da Câmara de Comércio Brasil-Irlanda para apoiar empreendedores, o incentivo ao ensino da língua portuguesa para manter viva a comunicação de crianças e adolescentes com a terra natal, além de utilizar o formato de consulados itinerantes para atender imigrantes pelo país. “Com o mapeamento, o próximo passo é desenvolver um diálogo com o governo para a formulação de políticas de segurança, mobilidade, cultura e ensino da língua, que ajudem os brasileiros”, finaliza o embaixador.

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