Abrindo caminhos: brasileiros encontram novos desafios e oportunidades em Gort

A presença brasileira é evidente desde a entrada da empresa. Foto: Daiane Vivatti

Com colaboração e edição de Daiane Vivatti

Na primeira reportagem da série Abrindo caminhos“, você conheceu a rota de imigração de centenas de brasileiros para a cidade localizada no interior da Irlanda. Agora, trazemos o presente, as mudanças e os novos desafios enfrentados por imigrantes brasileiros em Gort.

O inverno irlandês transforma o fim de tarde em noite rapidamente e o frio começa a ficar mais intenso, principalmente entre os meses de dezembro e janeiro. É comum haver dias em que a chuva persiste e, por volta das 16h30, anoitece. Isso faz com que os trabalhadores que atuam no novo frigorífico da cidade de Gort, muitas vezes, não tenham o contato com a luz do sol.

Mesmo vivendo na Irlanda por mais de 20 anos, o goiano Érico José dos Santos constata que os longos invernos ainda são difíceis de enfrentar: “Nesta época, a gente chega aqui, é escuro; sai daqui, é escuro ainda. A gente quase não vê o dia”, pontua.

O prédio do antigo frigorífico Sean Duffy possui extensos pavilhões que foram ganhando outros usos com o passar dos anos. Um dos espaços, por exemplo, se tornou depósito para uma exportadora. A empresa, que por anos empregou mais de 170 funcionários, conseguiu reabrir após o fechamento em 2007, mas em uma realidade totalmente diferente. Com o nome de S&S Duffy Meats Ltda, o frigorífico voltou a funcionar com apenas seis funcionários, todos brasileiros. Logo na entrada, uma placa com informações sobre uma possível vistoria de pertences está escrita tanto em português quanto em inglês.

Érico foi o primeiro chamado para retornar ao emprego e, assim como ocorreu desde o início da história dos brasileiros na cidade, um foi abrindo caminho para outros conhecidos. Foi assim que Eidivando Francisco da Silva e Silvania Santos Silva, naturais de Porangatu, interior de Goiás, também voltaram a trabalhar no frigorífico. O casal fazia parte do primeiro grupo de funcionários no início dos anos 2000.

“Eu fui um dos primeiros que cheguei em Gort, vieram seis na frente e depois mais seis. Eu cheguei aqui em 23 de junho de 2000. E eu já vim com o documento porque eu tinha um amigo que trabalhava em Roscommon e o patrão lá era amigo do patrão daqui e queria contratar brasileiro porque sabia que brasileiro é bom de serviço. E mandou tudo, mandou passagem, documento (visto de trabalho)”, relembra Eidivando.

O trio não soube precisar exatamente quando foi o retorno, cerca de 7 ou 8 anos atrás. De acordo com alguns registros encontrados pelo Agora Europa, a reabertura da empresa, hoje com o nome de S&S Duffy Meats Ltd, ocorreu em novembro de 2014. Como o grupo presenciou as duas experiências, tem propriedade para falar sobre as mudanças: “Isso aqui antes era a cantina, você acredita?”, comenta Érico, apontando para o pequeno espaço onde hoje funciona o frigorífico.

Entre memórias do passado e expectativas para o futuro, as duas décadas de vida em Gort permitiram que o trio acompanhasse as diversas fases pelas quais a cidade passou. Érico, Eidivando e Silvania viveram a mudança da moeda – de libra irlandesa para Euro –, diferentes períodos econômicos e também viram o desenvolvimento da região dia após dia.

“Gort aqui era pequenininho, cresceu muito”, conta Eidivando. Érico assente e relembra que na época em que chegou a região central era resumida a “duas ruas”. Com a chegada de brasileiros que se estabeleceram em Gort, o setor da construção civil foi se ampliando especialmente devido à demanda por moradias. Com isso, novos condomínios foram surgindo. Também foi-se notando a abertura de novos negócios, principalmente de grandes redes de supermercado que até então não estavam presentes na cidade.

Eidivando e Érico fazem parte da equipe que hoje conta apenas com seis funcionários, todos brasileiros. Foto: Daiane Vivatti

O trio relembra que quando chegaram, por mais de um mês, faltou arroz. O alimento não faz parte da alimentação tradicional dos irlandeses, que têm como base a batata. Os imigrantes, porém, mesmo distantes da terra natal, mantêm a tradição das comidas locais.

“Quando os mercados daqui viram que a gente comia arroz e feijão, começaram a vender também”, recorda Silvania. E essa demanda também abriu mercado para novos negócios geridos pelos próprios brasileiros que, aos poucos, foram importando mais e mais produtos do Brasil para revender na cidade.

Mesmo com a grande presença de conterrâneos, no entanto, os primeiros anos não passaram sem dificuldades. Érico lembra que, em 2002, um grupo de moradores irlandeses se opuseram à presença dos brasileiros no local; porém, a tentativa de expulsá-los da cidade não teve sucesso.

“Os donos de hotéis, de bares e aqui da fábrica foram contra, porque estava dando muita renda pra cidade. As pessoas que alugavam casas também se juntaram. Aí eram dois grupos, um contra e um a favor”, relembra.

Na época, até mesmo alugar uma moradia era um desafio sem que um nome irlandês também estivesse no contrato. A rede de contatos, como amigos e donos das empresas onde trabalhavam, foram fundamentais para que os imigrantes pudessem ficar na cidade. E, com o passar dos anos, as oportunidades para os imigrantes foram se ampliando.

Mais perto de casa

Ao caminhar pelas ruas de Gort e entre o comércio local, a sensação que se tem é que os brasileiros estão em todos os lugares. Ao procurar por uma cozinheira que chegou na cidade há cerca de 12 anos, bastou parar em uma oficina mecânica e o irlandês que lá estava imediatamente explicou qual era a casa certa. A brasileira não estava na residência, mas logo um vizinho se ofereceu para nos levar a uma lan house que também vende comidas típicas, como coxinhas.

É visível que quem frequenta o estabelecimento mata um pouco da saudade de casa – ou até mesmo se sente no Brasil. Na televisão, um tradicional programa matinal brasileiro, com vozes, personagens e histórias que permitem relembrar os hábitos daqueles que ficaram do outro lado do oceano. Os frequentadores que querem sentir um pouco do sabor de casa precisam ser rápidos. Por volta do meio-dia, os últimos lanches típicos já haviam sido vendidos e o balcão estava vazio.

Há três anos a empresária oferece serviços e produtos a brasileiros que vivem na cidade. Foto: Daiane Vivatti

O negócio se tornou viável devido ao desenvolvimento de Gort e às oportunidades que os imigrantes começaram a encontrar. Ana Maria Alves Caiado mora na cidade desde junho de 2011. Com planos de, inicialmente, apenas estudar na Irlanda, acabou ficando. Em 2017, ela e o marido abriram a lan house que oferece aos clientes a possibilidade de encontrar a ajuda que eles precisam, além de rostos familiares.

Localizado no centro de Gort, o empreendimento é ponto de encontro para muitos brasileiros locais. Além de acesso à internet e dos lanches típicos, Ana e o marido também oferecem serviços para auxiliar pessoas que, por exemplo, precisam resolver questões relacionadas à documentação, mas que têm dificuldades com o idioma.

Mesmo mantendo a proximidade com o Brasil e fazendo a conexão entre os imigrantes, a empresária avalia que a família se inseriu na cidade irlandesa. Com isso, acredita que seria difícil retornar à terra natal no futuro: “eu acho que pra adaptar lá vai ser complicado. Eu tenho filho aqui”, destaca Ana.

A lan house, prédio com a fachada azul na foto, é o ponto de encontro de muitos brasileiros. Foto: Daiane Vivatti

Brasileiros ou irlandeses?

O vínculo com a cultura brasileira é totalmente diferente para as gerações mais jovens, principalmente no caso de filhos de imigrantes que já nasceram na Irlanda. Ana explica que o filho, hoje com seis anos, tem pouca conexão com a terra natal dos pais. A situação é semelhante para outras crianças e adolescentes que, inevitavelmente, se identificam e absorvem a cultura local.

“Eles não falam português entre si. Mesmo brasileiros, filhos de brasileiros. Acaba que a nacionalidade é brasileira, são filhos de brasileiros. Mas se você tentar falar com eles em português, eles não respondem em português”, exemplifica.

Além das crianças que já nasceram na Irlanda, há também os que migraram quando eram pequenos junto com os pais e, com isso, viveram os anos iniciais no Brasil. Hoje com 24 anos, Hayanne Sousa se mudou para a ilha aos nove anos de idade. Na mudança para um novo país, a adaptação também passou pelo processo de alfabetização na escola. O aprendizado escolar, que havia iniciado com a língua portuguesa em Anápolis, Goiás, mudou para o inglês no momento de chegada à Gort.

“Eu fiquei meio perdida no idioma, mas eles falaram pra eu aprender rápido pra eles me adiantarem de turma (no colégio). Então eu tive uns seis meses, então eu ficava perto das irlandesas, ficava conversando pra aprender e não ficar atrasada na escola. Porque eu cheguei com zero de inglês, aprendi tudo na infância”, conta.

Depois de um tempo, Hayanne lembra que chegou a ser chamada pela diretoria para traduzir as cartas da escola para o português, pois havia uma grande presença de brasileiros. A realidade para os irmãos mais novos – dois nasceram na Irlanda e um no Brasil – no entanto, já foi diferente. O menor, com seis anos, fala inglês e também irlandês. De acordo com a jovem, o objetivo da mãe é que o pequeno aprenda um terceiro idioma.

A brasileira passou boa parte da infância e início da adolescência na Irlanda. Dos 14 aos 20 anos, no entanto, retornou ao país natal para viver com a mãe. Há quatro anos, no entanto, Hayanne retornou para viver na Irlanda e o desejo de morar na terra onde nasceu já não existe mais.

“Eu não vou, não. No Brasil, eu era muito presa, minha mãe era muito medrosa comigo no Brasil. Aqui, eu atravesso a Irlanda sozinha”, explica.

Enfrentando as dificuldades

A facilidade encontrada pelas crianças e adolescentes no aprendizado da língua, no entanto, nem sempre é a mesma para os brasileiros que imigram quando adultos. Do lado de trás do balcão do único supermercado brasileiro na cidade, Suziana Cristina Ferrari Queiroz atende os clientes que vão às compras. Quando se trata de responder em inglês, a técnica é memorizar os diálogos e fazer o possível para entender e ser entendida.

“O que eu aprendo mais é atendendo os irlandeses aqui. São sempre os mesmos que vem, aí eles fazem sempre as mesmas perguntas e você vai decorando e você vai entendendo e sabendo o que é”, explica Suziana.

Assim como tantos outros imigrantes, ela e o marido escolheram Gort por influência de familiares. Os dois cunhados, que vivem na região há mais de uma década, por muito tempo insistiram na mudança, até que ela e o marido decidiram aceitar o convite de viver em na cidade. A mudança ocorreu há dois anos, trazendo também a filha, na época com 15 anos.

Brasileiros em Gort
Suziana trabalha no único supermercado brasileiro na cidade. Foto: Daiane Vivatti

O supermercado onde a paulista de Votuporanga trabalha tem a cara do Brasil: paredes coloridas de verde e amarelo e produtos típicos das prateleiras e cozinhas brasileiras. Porém, ainda que o ambiente traga um pouco de casa, ela enfrenta desafios para se habituar à nova rotina. Acostumada à independência e facilidades que encontrava em sua cidade natal, ela relata que nem sempre é fácil imigrar.

“A gente sofre, você chega num lugar estranho, língua estranha. É complicado, é difícil. A pessoa tem que ser muito forte pra decidir que vai ficar”, pontua.

Sua principal motivação é poder oferecer à filha mais nova, de 17 anos, a possibilidade de ingressar no ensino superior.

“Hoje, falando no dia de hoje, eu não pretendo ficar aqui muito tempo ou pra sempre. Eu tenho vontade de trabalhar e daqui a uns tempos ir embora. (…) Tudo o que me segura hoje aqui é um estudo, uma faculdade pra ela. Que é melhor, acho que é melhor do que no Brasil. O que mais a gente pensa hoje é nela”, explica Suziana.

Desafios em meio à pandemia

As dificuldades encontradas por imigrantes são ainda maiores para quem chega ao país sem a documentação necessária. Mesmo aqueles que têm amigos e família na Irlanda encaram desafios extras se não possuírem visto de emprego. A limitação profissional é uma delas, já que a maioria das empresas não contrata pessoas que não possuem permissão para trabalhar. O que restam são vagas que, muitas vezes, exploram a situação vulnerável em que tantos imigrantes se encontram, oferecendo baixos salários e jornadas exaustivas.

A chegada da pandemia tornou a vida ainda mais difícil para alguns desses brasileiros, principalmente os recém-chegados e pessoas que ainda não haviam legalizado a situação no país. O Gort Resource Centre, centro de apoio que, entre outros serviços, oferece suporte a imigrantes que estejam passando por dificuldades, foi um importante ponto de auxílio nesses casos. Somente no período do primeiro lockdown no país, entre março e maio de 2020, cerca de 80 famílias recorreram aos serviços do local.

O local presta apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade, incluindo imigrantes. Foto: Gort Resource Centre/Facebook

A cuidadora social Ana Claudia Silvestre atua diretamente em casos de famílias brasileiras. Ela relata que o impacto da Covid-19 refletiu no número de pessoas que precisaram de ajuda, seja com alimentos, documentação ou mesmo para segurança, como em casos de mulheres vítimas de violência doméstica.

“Eles nos ligavam e falavam: ‘olha não tem comida’, a gente ficava desesperado. ‘Meu aluguel tá vencendo’. Foi um momento de muita dificuldade para todos nós porque, infelizmente, a gente tem um limite, que a gente também não pode trazer todo mundo pra casa”, relembra Ana.

Entre as ações realizadas pelo centro, a doação de alimentos, em parceria com supermercados locais, viu um salto na demanda. Somente neste período, o número de pessoas que foram ao Gort Resource Centre em busca de alimentos cresceu mais de 50%. Muitos perderam o emprego e, por não estarem registrados, não puderam sequer buscar o auxílio oferecido pelo governo federal. Por outro lado, porém, cerca de 20 a 30 brasileiros que moram na Irlanda há mais tempo e não possuem visto conseguiram fazer o PPS – documento irlandês semelhante ao CPF brasileiro – e, com isso, tiveram a chance de receber a ajuda financeira governamental.

Outros tempos

Atualmente, estima-se que pelo menos um a cada seis moradores da cidade seja brasileiro. De acordo com o censo populacional mais recente, de 2016, Gort possui 2.994 habitantes, sendo cerca de 13,5% brasileiros. Os moradores, no entanto, acreditam que esse percentual seja ainda maior, já que não há registro do número exato de brasileiros vivendo sem documentação na cidade.

Por mais que viver em outro país seja o sonho de muitos, a decisão exige muito planejamento. A realidade encontrada pelos primeiros brasileiros a chegarem na Irlanda, entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000, já não é mais a mesma dos imigrantes mais recentes, segundo os próprios moradores. Se antes conseguir um visto de trabalho e tornar-se um residente no país era algo frequente, hoje, a falta de planejamento pode resultar em dificuldades e limitações.

Mesmo aqueles que já têm uma vida estável na Irlanda alertam para os desafios de tentar a vida no país. Suziana relata que não esconde as dificuldades a quem pergunta sobre a vida na Ilha da Esmeralda, principalmente com aqueles que não têm a documentação necessária.

“Sem documento, eu não viria. As pessoas que não tem documento pegam um serviço muito braçal. Eu atendo muito brasileiro que tá aqui, que não tem documento e fico pensando assim ‘pô, talvez não tinha uma vida tão legal no Brasil, por isso veio pra cá’. Tem pessoas que eu vejo e penso por que a pessoa veio pra cá, por que tá vivendo isso? Será que lá (no Brasil) não tem uma oportunidade de viver melhor do que tá vivendo aqui?”, questiona.

A cuidadora social Ana Claudia Silvestre vê em sua rotina o sofrimento de imigrantes em situação de vulnerabilidade. Para a profissional, a falta de documentos e de organização financeira e a promessa de vida fácil podem resultar em frustração e dificuldades ainda maiores do que as vividas no Brasil. Sua atuação como voluntária é voltada para indivíduos e famílias que se encontram em tais situações e, por esse motivo, ela reforça a importância de ter cautela antes de tomar a decisão de mudar de país.

“Informe-se. Além daquele amigo, além daquela família que está lá que você conhece. Informe-se em sites oficiais. E, mesmo assim, querendo vir, prepare-se. Prepare-se psicologicamente, financeiramente, venha com uma pequena reserva”, recomenda.

Entre ir e permanecer

Eidivando e Silvania não se arrependem da escolha que fizeram há 20 anos. O casal de Porangatu, no interior de Goiás, reconhece as conquistas que teve desde a mudança para a Irlanda, especialmente no que diz respeito às melhores condições de vida. Silvania comemora o fato de ter conseguido pagar uma cirurgia para o filho que ficou no Brasil: “se eu tivesse lá, não teria tido dinheiro suficiente para pagar”, explica.

Por outro lado, os dois ficam divididos quando o assunto é o futuro. Entre a estabilidade encontrada na Ilha da Esmeralda e a saudade da família que ficou no Brasil, eles ainda encontram dificuldades em definir os planos daqui para frente. O cansaço e a rotina exaustiva pesam mais com o passar dos anos e a vontade de retornar para a terra natal fica mais presente.

“Eu gosto, mas tem família, filho no Brasil, então tem que voltar. Gostar daqui, eu gosto, tudo que temos é aqui, nós construímos aqui, eu agradeço muito, mas tem que voltar”, explica Silvania.

Viver como imigrante pode ser um sonho, mas também um desafio. Enquanto muitos querem passar pela experiência de viver em terras estrangeiras, para aqueles que estão longe, a saudade é companhia constante e um fator fundamental quanto aos planos para o futuro. O consenso está na busca por melhores oportunidades de vida, independentemente do país escolhido para morar.

 

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