Líder mundial, França vê turismo despencar em um ano de pandemia

 

A Torre Eiffel costuma receber cerca de 7 milhões de visitantes todos os anos. Em 2020, no entanto, houve uma queda de 80% nas visitas em relação ao número de 2019. Foto: Canva

A segunda reportagem da série especial do Agora Europa “Pandemia: Ano 1” mostra que a França, líder mundial em turismo, enfrenta uma perda de 61 bilhões de euros devido à impossibilidade de receber visitantes.

14 de março. Nesta data, há um ano, o ainda pouco conhecido “novo coronavírus” se espalhava de forma espantosa pela França e levava o governo a difícil decisão de fechar cafés, restaurantes, cinemas e todos os pontos turísticos do país mais visitado do mundo. A partir deste dia, a avenida Champs-Élysées foi ficando vazia, assim como os corredores do gigante museu do Louvre e os elevadores que diariamente sobem e descem os 300 metros ao topo da Torre Eiffel. Essa seria apenas a primeira medida dura das muitas que os franceses viriam a enfrentar – e seguem enfrentando – neste um ano de pandemia de Covid-19.

A detecção do primeiro caso da doença em território europeu ocorreu justamente na França, um mês e meio antes das restrições começarem a ser implementadas. Uma mulher francesa, de 48 anos, foi hospitalizada no dia 23 de janeiro, em Bordeaux, após ter passado por Wuhan, na China, local de início do surto global. O diagnóstico viria no dia seguinte, acompanhado de mais dois casos registrados em Paris, dando início a uma caçada aos contatos próximos dos infectados na tentativa de barrar a disseminação da doença no país. Estudos posteriores, no entanto, mostraram, por meio de amostras congeladas, que o vírus já circulava na França em dezembro de 2019.

A brasileira Leticia Ribeiro, 22 , que mora em Paris há 1 ano e seis meses, e conta que, mesmo diante do aumento de casos e de mortes a cada dia, a sensação era de que logo uma solução iria aparecer: “Tínhamos esperança que tudo se resolveria rápido, mas não foi isso que aconteceu. Passaram algumas semanas e aí nos demos conta de que as coisas só tendiam a piorar”, relembra a brasileira.

Garçonete de um restaurante turístico de grande movimento nos arredores da capital, Leticia viu de perto a intensificação da pandemia no país e as consequências do fechamento das fronteiras, especialmente no setor de turismo. A brasileira conta que ficou meses sem trabalhar e até hoje, um ano depois, segue trabalhando apenas por meio período. “O desespero veio, pois como se manter sem a renda que você tinha todo mês? Foi complicado. Tive que diminuir todos os gastos que eu tinha e ficar só com o necessário”, relata.

A queda no número de turistas que desembarcam em solo francês chega a 65%, de acordo com dados da Eurostat. Nas receitas, esse número representa uma perda na ordem de 61 bilhões de euros, um tombo de 41% na arrecadação, conforme revelado pelo secretário de Estado do Turismo, Jean-Baptiste Lemoyne, em entrevista concedida em janeiro. Só na Torre Eiffel, principal atração turística parisiense, as visitas caíram 80% em 2020.

Mais de 80 milhões de turistas internacionais visitam a França todos os anos, de acordo com dados da Organização Mundial do Turismo. O setor emprega cerca de dois milhões de pessoas direta e indiretamente e representa 7,4% do PIB nacional.

O cenário só não foi completamente desastroso para o setor em 2020, pois os meses de verão – junho, julho e agosto – foram salvos pelo turismo nacional, no momento em que a pandemia parecia controlada no país. De acordo com relatório do governo lançado em 16 de setembro, 94% da população que fez viagens durante o período de férias, as fez dentro do próprio território francês. Para este ano, a Atout France (Agência de desenvolvimento do turismo da França) prevê um reaquecimento e projeta uma receita de 111 bilhões de euros.

Relaxamento no verão e um novo confinamento

As consequências da rápida reabertura no verão, no entanto, vieram nos meses seguintes – agosto, setembro e outubro, com a segunda onda da Covid-19. Uma escalada no número de casos era vista a cada semana, o que culminou em um novo confinamento nacional no dia 30 de outubro. “O vírus circula na França a uma velocidade que nem sequer os prognósticos mais pessimistas tinham previsto”, expressou o presidente francês Emmanuel Macron, no discurso televisivo de anúncio das novas restrições, em 28 de outubro de 2020.

O turismo novamente paralisado e as restrições devido à crise sanitária afetaram gravemente a situação dos estudantes universitários na França. Sem a possibilidade de realizar os trabalhos de meio período, muitos jovens passaram a enfrentar filas para receber doações de comida das autoridades, situação revelada em um vídeo que viralizou e chocou o país. O momento foi ainda mais delicado para os estudantes estrangeiros, que, sem a possibilidade de retornar à casa dos pais durante o confinamento, tiveram de enfrentar o período em alojamentos universitários compartilhados e de dimensões bastante modestas.

A reabertura do segundo confinamento teve início no dia 15 de dezembro, mas ainda com bares, cinemas e pontos turísticos fechados. Os restaurantes receberam a autorização para realizar vendas à porta, o que somado ao toque de recolher, das 18h às 6h, gerou uma explosão na busca por empregos individuais, principalmente na área de entregas de comida. Estima-se que, atualmente, mais de 50 mil pessoas desenvolvam a atividade como emprego principal ou complemento de renda na França.

A pandemia também deixou suas marcas em empresas francesas tradicionais e de grande porte, como Renault, Peugeot e Air France. A gigante da aviação mundial perdeu dois terços dos seus passageiros em 2020 e um montante na ordem de sete bilhões de euros. O faturamento teve uma queda de 59% em relação a 2019, conforme comunicado divulgado à imprensa no dia 18 de fevereiro deste ano, uma perda considerada “sem precedentes” pelo diretor financeiro do grupo, Frédéric Gagey.

Confinamentos locais e o cenário atual

Com pouco mais de 7% da população já vacinada até o momento, a França segue confinando partes do território para conter novos avanços da Covid-19 e de suas variantes no país. Atualmente, a cidade de Dunquerque e os departamentos de Pas-de-Calais e Alpes Marítimos vivem lockdown aos finais de semana, em adição ao toque de recolher nos dias úteis.

Ao todo, 5 milhões de franceses foram vacinados, com ao menos uma dose da vacina contra o coronavírus, revelou o primeiro-ministro Jean Castex na noite de ontem (13). Cerca de 2,5 milhões de pessoas receberam as duas doses, desde o início da campanha de vacinação no país, no dia 27 de dezembro de 2020. A França, assim como outros países da União Europeia, tem aplicado as vacinas fornecidas pelas farmacêuticas Moderna, Pfizer e AstraZeneca. Na última sexta-feira (12), no entanto, as autoridades de saúde aprovaram um quarto imunizante no país, desenvolvido pela empresa norte-americana Johnson & Johnson.

Desde o início da pandemia, mais de 90 mil pessoas já morreram vítimas da doença na França. As admissões nas UTI’s seguem aumentando a cada dia e “a pressão na saúde está agora atingindo níveis semelhantes aos observados quando nos aproximamos do pico da segunda onda”, declarou o Ministro da Solidariedade e da Saúde, Olivier Véran, em conferência de imprensa na última quinta-feira (11). Atualmente, 24.671 pacientes encontram-se internados em hospitais, sendo 4.070 destes em unidades de terapia intensiva, de acordo com dados das autoridades de saúde.

Sem novas restrições para o momento, a situação segue “tensa e preocupante”, nas palavras do ministro, mesmo após um ano do início das medidas conter o avanço do coronavírus. O país segue na luta para obter mais vacinas e ampliar a aplicação dos imunizantes, solução descrita por Véran como a única “luz no fim do túnel” para sair da crise sanitária, econômica e social causada pela pandemia do coronavírus.

Na terceira reportagem da série especial “Pandemia: Ano 1”, a Espanha, vibrante e cosmopolita, silencia. Atualmente, o país enfrenta uma taxa de desemprego de 16%, uma das mais altas da Europa.

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