Saúde mental: Espanha enfrenta falta de profissionais para atender demanda


Os impactos psicológicos provocados pela pandemia de Covid-19 tem levado uma parcela da população aos consultórios médicos, com depressão, ansiedade e transtornos alimentares, especialmente o público mais vulnerável, como crianças, adolescentes e idosos. Na Espanha, desde o início da pandemia até agosto deste ano, 6,4% da população espanhola, o equivalente a mais de dois milhões de pessoas, procurou um profissional de saúde mental, segundo o Centro de Investigações Sociológicas (CIS).

No entanto, o número de trabalhadores que atende o setor é insuficiente para atender a demanda, segundo o Conselho Geral de Psicologia espanhol. O país tem três vezes menos profissionais de psicologia na saúde pública do que a média europeia. Enquanto a média do continente é de 18 profissionais a cada 100 mil habitantes, no território espanhol o número é de apenas seis.

Para a Confederação de Saúde Mental da Espanha, além do número insuficiente de profissionais, outro problema é a falta de formação especializada: “Em atenção primária, porta de entrada à atenção e saúde mental, a falta de formação específica nesta área não está permitindo detectar precocemente os transtornos mentais e encaminhar os pacientes aos recursos comunitários existentes”, relata a entidade ao Agora Europa.

Segundo a psicóloga Beatriz Durán, há uma lista de espera de muitos meses no sistema público de saúde mental do país: “Falamos de, no mínimo, seis meses, a não ser que seja uma urgência. E o tempo de espera entre uma consulta e outra chega a três meses. É impossível seguir um processo terapêutico psicológico adequado, neste intervalo de tempo. Além disso, a falta de atendimento dificulta o diagnóstico precoce”, conta a profissional em entrevista ao Agora Europa.

A especialista avalia ainda que a pandemia piorou o cenário, uma vez que muitas das pessoas atendidas por entidades ou serviços públicos de saúde mental deixaram de ser assistidas, abandonaram o tratamento ou tiveram dificuldade para ir aos centros de saúde: “Seguimos com poucas visitas presenciais a pacientes, em muitas zonas do país, o que prejudica o atendimento adequado a quem padece de alguma enfermidade mental”, pontua Durán.

Além disso, faltam profissionais de saúde especializados para atender a toda demanda e maior tempo de atendimento entre um paciente e outro, ressalta a psicóloga: “As pessoas precisam ser tratadas de maneira personalizada, com programas de intervenção adaptados a cada situação e de maneira disciplinar e isso não está sendo feito na Espanha, por falta de tempo e de pessoal. Se desamunizou a saúde mental e isso é muito grave”, explica Beatriz.

Também faltam vagas nos centros públicos de atenção à saúde mental e como os centros privados são mais caros, muitas famílias se veem forçadas a deixar o emprego ou buscar redução da jornada de trabalho para cuidar dos filhos em casa, relata Beatriz. “O que tem ajudado são as associações e fundações que realizam um importante trabalho de apoio”, diz a entrevistada.

A falta de profissionais especializados também foi debatida no XXI Congresso de Saúde Mental, realizado neste mês na Espanha. Segundo os participantes, houve redução nos investimentos nacionais em saúde mental, os centros de saúde mental, em zonas de baixa renda, estão saturados e há muitas desigualdades por áreas geográficas. Os profissionais reivindicaram maior acessibilidade a recursos públicos, promoção de psicoeducação em salas de aula, escuta ativa da infância e atendimento às necessidades específicas deste público. 

Transtornos psicológicos mais comuns

A Espanha é o país europeu com a maior prevalência de transtornos mentais em crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos, segundo relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância 2021. Segundo o estudo, 20,8% dos jovens nessa faixa etária sofrem algum tipo de transtorno mental. Entre eles, depressão, ansiedade, transtorno bipolar, distúrbios alimentares, distúrbios de conduta, déficit de atenção, esquizofrenia, entre outros. Segundo dados recentemente divulgados pela Sociedade Espanhola de Psiquiatria, os casos de depressão e ansiedade aumentaram 25% desde o ano passado, especialmente entre adolescentes e pessoas idosas.

Das crianças e adolescentes atendidos pela psicóloga Beatriz Durán, em saúde mental, a maioria apresenta depressão, transtornos alimentares e até tentativas de suicídio: “Os jovens foram amplamente instigados nas redes sociais para cuidar da alimentação e não engordar durante o confinamento. Lembro da quantidade de pessoas que praticavam exercício físico, ao vivo, pelo Instagram. Hoje, estes jovens apresentam comportamentos alimentares compulsivos, como bulimia e anorexia e engrossam as listas de internações hospitalares, até por tentativas de suicídio”, relata a profissional.

“Minha filha chegou a pesar só 30 quilos com 11 anos de idade”

A adolescente Carina*, que tem 11 anos e vive em Cadiz, na região de Andaluzia, sofreu as consequências da pandemia. A família só percebeu que ela apresentava um transtorno alimentar quando deixou de comer açúcar para não engordar. “Ela sempre comeu bem, mas de repente deixou de comer o que não considerava saudável. No começo do verão começou a diminuir a quantidade que ingeria e ficou obcecada em fazer exercício físico. Foi então que comecei a me preocupar. Em um mês, ela perdeu quatro quilos”, segundo relata a mãe da adolescente.

De acordo com a entrevistada, Carina relatou ao pediatra “que não se via magra e quando se olhava no espelho queria ter menos barriga, quando já não tinha nada”. Ainda segundo a mãe, a adolescente começou a esconder comida e se sentia deprimida e muito ansiosa.

A médica que atendeu a paciente a encaminhou a um endocrinologista para melhorar a alimentação, mas não adiantou. Depois, Carina foi hospitalizada e durante 35 dias se submeteu ao tratamento para ganhar peso: “No hospital ela ficou em repouso absoluto e tinha que comer tudo que colocavam na bandeja, porque não tomou suplemento alimentar. Também recebia, diariamente, a visita da psicóloga, para perder o medo de voltar a comer e não sofrer uma recaída. Apenas eu podia ficar com ela no quarto. Minha filha chegou a pesar só 30 quilos com 11 anos de idade”, conta a mãe. Desde que começou o tratamento, a adolescente não vai à escola e precisa voltar regularmente ao hospital.

Aumenta a taxa de suicídios

Na Espanha, também aumentou o número de mortes por suicídio. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa cresceu 7,4%, em 2020 em relação ao ano anterior, principalmente entre os meses de agosto de 2020 e fevereiro de 2021. A Fundação de Ajuda contra a Drogadição (FAD) também revelou, em uma recente pesquisa, que quase 40% dos jovens já teve ideias suicidas e 12%, com certa frequência, conforme o estudo.

Somente no País Basco, os internamentos psiquiátricos de adolescentes em algumas unidades de hospitalização infanto-juvenil aumentaram 50%, na comparação dos primeiros cinco meses de 2020 com o mesmo período de 2019. Os ingressos por transtornos alimentares triplicaram desde o primeiro confinamento, assim como aumentaram as consultas para crianças menores de nove anos com profissionais que tratam a saúde mental, de acordo com a Confederação de Saúde Mental Espanhola.

Beatriz Durán, que reside na região da Catalunha, confirma a situação: “Os hospitais Can Ruti e Germans Trias i Pujol estão vivendo o mesmo problema nas unidades da psiquiatria”, conta a psicóloga. De acordo com a profissional, as crianças, principalmente com menos de 10 anos, não possuem recursos emocionais para lidar com situações estressantes: “Agora que se convive melhor com o vírus, vimos que essas crianças e jovens sofreram um estresse muito intenso durante um largo período de tempo e hoje apresentam as consequências”, avalia a especialista.

Embora o impacto na vida de crianças e adolescentes seja incalculável, uma nova análise da Escola de Economia e e Ciência Política de Londres (London School of Economics), incluída no último relatório da Unicef intitulado “Situação Mundial da Infância 2021”, estima que transtornos mentais que levam jovens à incapacidade ou à morte acarretam uma redução de contribuições para as economias de quase US$ 390 bilhões por ano.

Governo garante 10 milhões de euros para formação de 90 mil profissionais

Para qualificar o atendimento aos pacientes de saúde mental, o Ministério da Saúde anunciou oficialmente, na última semana, a atualização da Estratégia de Saúde Mental, com a participação de sociedades científicas, associações de pacientes e familiares, Comunidades e Municípios Autônomos. Esta atualização, segundo o o ministério, terá uma nova abordagem baseada na melhoria da atenção à saúde mental em todos os níveis do sistema público, tanto hospital quanto de atenção básica, além da formação especializada de profissionais sanitários.

O Plano de Ação 2021-2024 Saúde Mental e COVID-19 contará com um investimento de 100 milhões de euros do Governo de Espanha para os próximos três anos. O objetivo é sensibilizar e combater a estigmatização, prevenir comportamentos aditivos, promover o bem-estar emocional e melhorar a prevenção, detecção e cuidado do comportamento suicida. “Desse total, o governo investirá 10 milhões de euros até 2023 na formação continuada de mais de 90 mil profissionais de saúde, em distintas áreas”, garantiu a ministra da saúde, Carolina Darias.

Ela também destacou que foram ofertadas 1.822 novas vagas de formação sanitária especializada para o concurso público de 2022, o que representa um aumento de  8,3% a mais do que no ano passado, segundo o Ministério da Saúde: “Ambas iniciativas tem como propósito cuidar melhor dos pacientes e melhorar sua qualidade de vida, seja em casa, nos centros de saúde ou nos hospitais”, afirmou Darias, em comunicado oficial.  

Entre as novidades do plano estão a criação da especialidade de Psiquiatria Infantil e Adolescente, que fará parte, a partir do próximo ano, da oferta de Formação Especializada em Saúde. Um número de telefone 24 horas, gratuito e confidencial, para atendimento profissional e apoio ao comportamento suicida, com encaminhamento rápido para os serviços de urgência em situações de crise também será disponibilizado.

Para a ministra da saúde, Carolina Darias, os pacientes com menos recursos financeiros que tiveram Covid-19 foram os que mais sofreram com problemas mentais: “Temos que atualizar nossas ferramentas para poder responder a todos desde uma abordagem transversal e de saúde pública aos desafios atuais e futuros. Este é o nosso compromisso e a nossa determinação para alcançar uma vida plena e saudável”, acredita Carolina.

O Agora Europa solicitou ao Ministério da Saúde mais detalhes sobre os anúncios e a falta de profissionais na área de saúde mental. No entanto, não houve retorno até a publicação desta reportagem.

*O nome da adolescente foi alterado para preservar a identidade

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