Na Espanha, bares e restaurantes contabilizam 300 mil demissões

O setor que representa 6% do PIB espanhol viu o público desaparecer e os lucros encolherem. Foto: ©pitatatu – stock.adobe.com

Um dos setores que mais emprega estrangeiros (21,5% dos postos de trabalho), incluindo brasileiros, é um dos mais castigados pelas restrições impostas pela pandemia do coronavírus: o de bares e restaurantes.

Os dois meses de lockdown, a redução do horário de atendimento, a limitação da capacidade de público dentro e fora dos estabelecimentos, os fechamentos perimetrais e a antecipação do toque de recolher frearam o consumo de clientes. A pandemia também espantou os turistas e causou mais danos à economia, já que 40% do lucro do setor é gerado pelos viajantes. A Espanha perdeu, em 2020, cerca de 65 milhões de turistas e 72 bilhões de euros, em comparação com o ano anterior.

O setor de bares e restaurantes que representa 6% do PIB espanhol viu o público desaparecer e os lucros encolherem. O ano de 2020 encerrou com uma perda no faturamento superior a 50% em relação ao ano anterior, informou o presidente de Hostelería de España, José Luiz Yzuel, em entrevista exclusiva ao Agora Europa. A queda no volume de negócios acumulou uma perda de 70 bilhões de euros em comparação ao ano de 2019.

Dos 320 mil locais registrados na Espanha (34.426 só em Madri), 85 mil fecharam as portas em definitivo. Nem as ajudas financeiras do governo central foram suficientes para manter os negócios abertos, informou a Hostelería de España. A organização empresarial representa os restaurantes, bares, cafeterias e pubs do país.

Segundo Yzuel, cerca de 30% dos estabelecimentos ainda podem desaparecer no primeiro trimestre de 2021. O resultado será o aumento do desemprego, com a perda de mais de um milhão de empregos diretos e indiretos.

Desemprego 

Atualmente, em toda a Espanha, há cerca de 300 mil trabalhadores do setor a menos do que em 2019.  Além disso, lembra Yzuel, há mais 340 mil trabalhadores em ERTE – um expediente de Regulamentação de Trabalho Temporário que consiste na suspensão temporária do contrato de trabalho enquanto o governo garante um salário mensal fixo, que pode variar entre 1.100 e 1.400 euros.  Portanto, no total, há mais de 600 mil empregos que estão sendo afetados pela crise.

“O momento mais crítico foi nos meses de lockdown, entre abril e maio, com o fechamento total dos locais. O faturamento caiu 90%. Neste período permaneceram abertos apenas os serviços de entrega à domicílio e já contávamos com 900 mil trabalhadores em ERTE”, acrescenta o presidente da entidade.

Outro problema que vem assolando o setor de bares e restaurantes é o preço dos aluguéis, que seguem sendo cobrados integralmente, mesmo com a limitação de funcionamento e de público. “As ajudas diretas do governo não resolvem nem 3% dos casos”, acrescenta Yzuel. “São necessárias outras medidas, como redução do valor dos alugueis, exoneração de impostos, incentivo ao consumo, ampliação do pagamento de ERTEs  e redução temporária do IVA, o Imposto sobre o consumo.

Protestos em toda a Espanha

Para chamar a atenção do governo e apresentar a atual situação econômica de bares, restaurantes e cafeterias no país, diversos donos de estabelecimentos realizaram manifestações em várias cidades espanholas.

A principal reivindicação é a necessidade de ajudas diretas como acontece em outros países da Europa. Yzuel cita como exemplo a França, onde os bares que estão fechados recebem 10 mil euros por mês para pagar as despesas fixas; Alemanha, que recebe 75% correspondente à perda do volume de negócios do ano anterior; Luxemburgo, com uma ajuda de 85%; e Holanda, com um auxílio financeiro não reembolsável que chega a 40 milhões de euros. Além do Reino Unido, Itália e Dinamarca, que também têm planos de resgate ambiciosos.

Além disso, o presidente de Hostelería de España defende que é preciso recuperar a confiança dos clientes. “Desde o primeiro momento a hotelaria tem se comportado com responsabilidade e redobrado os esforços para fazer dos locais lugares seguros, com o estrito cumprimento de todas as medidas de segurança. Mesmo assim, estamos em contato direto com o governo central e regionais para propor ações que permitam compatibilizar a contenção da pandemia com o desenvolvimento da atividade econômica da qual dependem milhões de famílias”. Yzuel acrescenta: “Dados do próprio Ministério da Saúde mostram que não somos fonte de contágio, pois 2,3% ocorrem neste segmento contra mais de 15% que ocorrem em ambientes privados”.

Perspectivas para 2021

As perspectivas do presidente da entidade hoteleira para 2021 são bastante realistas. Ele defende que a melhora do setor dependerá das restrições derivadas da evolução da pandemia e do aumento da imunização da população à doença. Mas espera que a recuperação comece já no verão, embora os número pré-crise não sejam alcançados até 2022.

“Se a situação agravar, as perdas para o setor serão ainda mais devastadoras. No entanto, o ritmo de recuperação vai depender da ajuda econômica e do apoio que o setor receba para relançar e manter os negócios abertos”, conclui Yzuel .

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