Espanha tem alta no número de feminicídios e de busca por ajuda


Com uma nova maneira de identificar os feminicídios no país, a Espanha viu o número de assassinatos de mulheres dobrar entre janeiro a junho deste ano, no comparativo com o mesmo período de 2021. O governo espanhol contabilizou 47 mortes incluindo, além de companheiros ou ex-companheiros das vítimas, outros homens que cometeram crime de ódio. Essa é a primeira vez que os dados levam em consideração os casos onde não há relacionamento conjugal entre o criminoso e a vítima.

Segundo relatório divulgado pelo Ministério da Igualdade, 19 mulheres foram mortas por outros homens que não eram os atuais ou ex-companheiros das vítimas. Dentre os casos, 60% foram praticados por familiares. Em seis assassinatos, os filhos são suspeitos e, em outros três crimes, os netos foram acusados.

Já os parceiros ou ex-parceiros são os suspeitos de 28 assassinatos ocorridos no primeiro semestre do ano, sete a mais do que no mesmo período do ano passado. “Nós sofremos como filhas, como esposas, como companheiras, como mães e como avós no núcleo do patriarcado, a família, em que se reproduzem as relações de poder”, destacou a Secretária de Estado para a Igualdade e Contra a Violência de Género, Ángela Rodríguez.

Contabilizar os casos em que o acusado não possui relações conjugais com a vítima é a mais nova estratégia do governo espanhol na política contra a violência de gênero. A partir de agora, esses dados serão divulgados trimestralmente, incluindo quatro tipos de feminicídio além daqueles cometidos por companheiros ou ex-companheiros, que já eram publicados: assassinato de mulheres em contexto familiar, quando cometido por parentes; o feminicídio sexual, quando o crime está relacionado com a violência sexual; o feminicídio social, quando não há uma relação familiar ou conjugal e o feminicídio vicário, que ocorre quando um homem mata uma mulher por vingança, para causar lesão ou dano a outra vítima.

De acordo com o Ministério da Igualdade, a Espanha é o primeiro país europeu a contabilizar todos os tipos de feminicídio: “Como governo, estamos começando a reconhecer que houve assassinatos que até agora passaram despercebidos”, explicou Ángela, ao anunciar os dados e metodologia de divulgação nessa segunda-feira (12). A secretária complementou ainda que a ação é um “princípio de justiça e reparação de que necessitam estas vítimas”.

Mulheres idosas como principais vítimas

De acordo com os dados divulgados pelo ministério, 57% das vítimas assassinadas em situações não conjugais tinham mais de 60 anos. Com isso, Ángela anunciou a criação de protocolos específicos em parceria com o Instituto de Idosos e Serviços Sociais (IMSERSO, sigla em espanhol), para ajudar as vítimas idosas: “Precisamos de ser capazes de lhes dar uma saída para a situação de violência que está a acontecer dentro das suas famílias, perpetuada vezes pelos seus filhos ou netos que vivem com elas”, complementou a representante do governo.

Em relação aos crimes relacionados com violência sexual, foram registrados dois casos, ambos de jovens menores de 16 anos. Os suspeitos são um vizinho e uma pessoa conhecida da vítima. Já os feminicídios sociais, que somam seis casos, têm como suspeitos vizinhos em três situações, dois colegas de trabalho e um conhecido da vítima. Em 89,5% dos feminicídios fora do contexto conjugal não havia denúncia de violência anterior. Nos casos de crimes em que havia uma relação conjugal, a taxa é menor, de 78,9%.

Outro aspecto que é diferente nos dois tipos de assassinatos de mulheres é a tentativa de suicídio dos agressores. Enquanto em 52,2% dos casos em que havia envolvimento conjugal os homens tentaram ou cometeram suicídio, nos demais tipos de crimes o número de tentativas ou consumação foi de 21%. 

Pedidos de ajuda aumentaram em todas as plataformas

A Espanha dispõe de três principais canais para que as vítimas possam buscar ajuda: telefone, e-mail e WhatsApp. O relatório aponta que houve aumento na procura em todas as plataformas.

O número de ligações para o número 016, destinado exclusivamente para vítimas de violência de gênero, teve um aumento de 15,9% em um ano. De janeiro a junho de 2021, foram 8.246 chamadas, enquanto no mesmo período deste ano subiram para 9.557.

No caso das consultas online, o aumento foi ainda maior, de 26,5% na comparação entre os primeiros seis meses de 2022 e o ano passado, com 141 vítimas. Já a busca por ajuda através do WhatsApp teve um crescimento de 7%, totalizando 592 casos neste ano. 

Como procurar ajuda

Todos os canais funcionam 24 horas, todos os dias da semana. O telefone é o 016 e o WhatsApp é o 600.000.016. Existe também um endereço de email para consultas online: [email protected] O atendimento é prestado em 52 diferentes idiomas. Em caso de emergência também é possível ligar para o número 112 ou para os telefones da Polícia Nacional – 091 e da Guarda Civil – 062.

Foto: Divulgação/Ministério da Igualdade
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