Empoderamento pelo esporte: brasileira ensina defesa pessoal e encoraja mulheres na Irlanda 

A última reportagem da série especial do Agora Europa, ”Brasileiras na Europa: histórias de representatividade”, em celebração ao Dia Internacional da Mulher, conta a trajetória da professora de jiu-jitsu Jaqueline Almeida até se tornar um exemplo de força para mulheres estrangeiras e irlandesas que buscam meios de autoconhecimento através do esporte em Dublin.

Ensinar mulheres a se defender e a lutar, com um propósito que vai além de simplesmente praticar um esporte: promover o empoderamento através das artes marciais. Menos de cinco minutos de entrevista são suficientes para perceber a paixão da instrutora Jaqueline Almeida, de 31 anos, pelo projeto que desenvolve na Irlanda. Em cinco anos de academia, mais de 100 mulheres já passaram pelo tatame da profissional de jiu-jitsu, carinhosamente chamada de Jaque pelas alunas.

A maior inspiração da brasileira vem da família, de duas mulheres ”fortes e batalhadoras”, a mãe e a avó, que são parte essencial na vida da atleta. “Quando eu era pequena, a minha mãe cuidou de mim sozinha, então ela trabalhava bastante, eu ficava bastante com a minha avó”, relembra. Os pais de Jaque se separam quando ela tinha apenas três anos, pois o pai agredia a mãe devido ao alcoolismo.

O divórcio dos pais e a chegada do padrasto na vida de Jaque, com quem ela ”não se dava muito bem”, fez com que a figura masculina tivesse uma “imagem não muito boa” na vida da atleta. “Um que agredia, o outro que não gostava muito de mim e me comparava muito com a filha dele. Meu pai me amava muito, mas era ausente”, relata.

Ao completar 19 anos, a paulista, natural de Mogi das Cruzes, decidiu sair de casa, encontrou um trabalho na área de marketing e fez faculdade de Comunicação Social – Publicidade e Propaganda. Em 2012, com 21 anos, um amigo a apresentou ao jiu-jitsu. O esporte mudou muito a vida de Jaqueline, mas a atividade ainda era vista como um hobby, mesmo que ela participasse de competições no Brasil.

No início da trajetória no jiu-jitsu, Jaque conheceu um ex-namorado que motivou uma grande mudança na sua vida. Depois de ter um relacionamento ruim, onde foi traída, a brasileira contou com a ajuda de um terapeuta e decidiu que era a hora de mudar. “A minha mãe, de um lado, sempre queria que eu tivesse aquela vida de casar, comprar casa, carro e ficar no Brasil, e eu tinha o meu outro lado, que eu queria ganhar o mundo”, revela.

Viagem à Irlanda e o reencontro com o jiu-jitsu

Em 11 de março de 2016, sem falar uma palavra de inglês, a imigrante desembarcou na Irlanda. Com visto de estudante, a atleta se dedicou ao aprendizado do idioma, trabalhou em restaurante, hotel, café, fez trabalho voluntário com senhoras de idade e ficou, por um tempo, afastada do esporte. Em 2017, por acaso, teve um colega no trabalho praticante de artes marciais. O convite para conhecer a academia onde treinava resultou no encontro com John Kavanagh, o treinador do irlandês Conor McGregor, um dos mais renomados lutadores de UFC do mundo.

John deu oportunidade para Jaque conduzir treinos de jiu-jitsu para mulheres na academia depois que ela começou a questionar por que o público feminino era tão baixo. Segundo a instrutora, no início havia apenas quatro mulheres, enquanto na academia no Brasil eram quase 30. “Eu não sabia ainda que eu estava empoderando mulheres, não me dei conta, eu só queria ter mais mulheres pra eu dar o treino”, recorda. 

Em 2017, dois ataques violentos a mulheres ocorreram na Irlanda e, com isso, um novo projeto surgiu na academia: Jaqueline começou a dar aulas de defesa pessoal gratuitas para o público feminino aos sábados. Atualmente, é cobrado um valor de 10 euros por classe. Foi nesse período que uma aluna mudou completamente a visão de Jaque sobre o trabalho que ela estava desenvolvendo. “Ela me fez entender o propósito de ajudar mulheres quando me disse ‘Jaque, você é o motivo por eu estar nessa academia’”, conta a instrutora.

Jaqueline ficou sem entender até conhecer a história de Emma. A irlandesa foi abusada quando criança, teve câncer e passou por quimioterapia e o marido tentou matá-la, mas ela conseguiu sobreviver. Tudo foi documentado em uma série de televisão irlandesa e, quando Jaque assistiu, ficou em choque. “Aí eu vi que a minha aula não é só uma aula de jiu-jitsu. Aquela mulher estava lá para aprender como se defender. Ela precisava daquilo, porque se ela tivesse isso, talvez ela não tivesse passado pelo que passou”, conta a brasileira.

Projeto ligado ao esporte e o futuro na Irlanda

Além da academia, Jaque também fez uma parceria com a entidade encarregada pelo desenvolvimento do esporte na Irlanda. Junto com uma colega psicóloga, elas trabalham em um projeto em áreas de vulnerabilidade social localizadas em Dublin, capital irlandesa. “Estamos implementando toda a parte de autoconfiança, pensamentos positivos, vulnerabilidade, linguagem corporal, postura quando você é atacado e a de defesa pessoal também”, explica. No total, Jaqueline tem mais de 45 alunas, entre 20 e 70 anos de idade.

Durante esse período na Irlanda, Jaque conciliou as aulas de jiu-jitsu com um outro trabalho, na área de marketing, pois precisava do visto para permanecer no país. Somente neste ano, ela conseguiu a permissão de residência e decidiu largar o emprego para se tornar empreendedora na área do esporte. “Eu preciso mudar vidas. Não é porque nós somos mulheres que a gente não pode fazer as coisas. O jiu-jitsu me ensinou a ser determinada, a vencer muitos obstáculos, a vencer o medo, e eu quero transmitir tudo isso pra elas e mostrar que elas podem também”, finaliza Jaque.

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